quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

POESIA

1.

ELA, A POESIA

Primeiro me apareceu como
uma enorme estátua tradicional
desabando sobre o meu corpo,
uma republiqueta neo-aristotélica
sem poetas tortos,
uma acadêmica avalanche
de deificados
para ser inquestionavelmente
adorada.
Fugi apavorado
e não tive o menor tempo
para sugar alguns bocados
da sua competência
lingüístico-formal.
Depois me apareceu como
romantismo babaca,
ditadura do superficial
em nome do povo,
disfarce vulgar
de fingimentos e pornografias.
Fugi desesperado mais uma vez,
e nem tive o menor tempo
para assimilar um pouco
das intensas revelações
do seu cerne diluído
na concretude cotidiana.
Agora vislumbro que ela
pode ser diferente,
embora permaneça incapaz
de neutralizar todo o seu joio.
Então ela vem
e atiça os humores transcendentes
das minhas precavidas
buscas abissais
e da minha esquisita
antropofagia por conta própria.
E emerge tudo aquilo
que foi represado
por todos os milênios
do môfo politiqueiro de sempre.
Mas derrepente
as suas tendências individualóides
me apunhalam pelas costas,
e nada me resta senão
relaxar e gozar
o estupro de sua cínica multidão
de pequenos vampiros
egóticos.
E emerge alteregos
indesejáveis
para manipular
minha personalidade.
Prolonga minha adolescência
pra muito além do aceitável.
Me enlança em tentáculos
dos seus labirintos
sem fio de Ariadne.
Tritura inescrupulosamente
meus últimos vestígios de lucidez.
Por que todo esse jogo duro
pra cima de mim?
Sou apenas um escrevinhador
contingente,
poetinha bissexto
e tragicômico,
perdido entre as garras
da sociedade tecnocrata,
agora ainda mais perversa
e global.
Penso em deixar de ser poeta,
em abandonar a Dona Poésis
pra que possa viver
a vida normal de todos os homens,
falsamente
sem desconfianças nem conflitos,
biritando, sambando,
batendo peladas,
indo à missa aos domingos,
acompanhando novelas,
fuxicando
na pracinha
em frente à igreja.
Mas logo estou desejando
a dama doida
outra vez.
E vejo-a em tudo:
nas nuvens,
nas ruas,
nos confins do universo,
à flor da pele,
no caos atômico,
na porcaria
que os esgotos derramam
no Capibaribe.
Agora observo-a pesquisando
os limites da consciência,
mas nem sempre sei
onde ela é
conhecimento sério
ou apenas isca
para pescar almas.
Como posso presumir
seus desejos?
Onde devo mesmo procurá-la?
E então...
imprevisivelmente
ela me dá
uma chance
e me deixa apalpar
a sua natureza
fugidia.
Mas eu vinha dedicando-lhe
noventa por cento
do meu tempo livre.
O que mais ela queria de mim?
Que eu sublimasse
toda minha libido
e ofertasse em holocausto
no mais alto píncaro
da mais inacessível montanha?
Constantemente me flagro
conversando abobrinhas
com a minha sombra.
Desenhando poemas
mentalmente absorto
em meio ao rush.
Anotando idéias repentinas
na cadernetinha.
Grifando termos exóticos
no Aurélio sessentão.
Imerso em divagações
enteomaníacas
e vingativas.
(Acho mesmo que estou
ficando doido
por causa dela.
Ando mais tinhoso
que o Villon.
Perdi o contato com a
espontaneidade
devido aos excessos
introspectivos.)
Mas apesar de todos os riscos
vou abrir as pernas
pra sua explosão artística.
Então ela vem
e me traz as migalhas
de sua autopercepção
aguda,
como um molusco enroscado
sobre si mesmo,
uroboro
com descargas intuitivas
brotando da
eroticidade transmutada.
Vênus purificada
com os órgãos sexuais
arreganhados para o Cosmos,
aventureiro superior
que atravessou e venceu
o Estige.
E aí ela vem mesmo
e me fecunda
com a fartura
de suas raízes sensitivas.
Fúrias ontológicas jorrando
como gêiser mirabolante.
Imagens mentais surgindo
como inebriantes
fogos de artifício.
Subjetivas inóspitas
regiões ímpares.
Garotos sensíveis fabricando
os seus próprios biscoitos finos.
Novas sugestões místicas
como substitutas para
as religiões degeneradas.
Antídotos para a selvageria
mercadológica e ditatorial.
Remédios para o tédio.
Refinadas sensibilidades
redefinindo sentimentos.
Compartimentos ruindo
como castelos de areia
em ventanias.
Opostos em desabaladas
sínteses
autotranscendentes.
E eu, entorpecido,
cavalgado, dirigido,
iluminadamente
insano,
sorvo os abismos
e miasmas
melífluos
que brotam
do seu útero
pré-cósmico,
inabarcável,
insondável,
randômico,
inexplicavelmente
fractal.

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2.
MISTERIUM
TREMENDUM

criatividade
não tem
idade

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3.
VIRADA
FATÍDICA
As medusas
venceram.
Perseu
se fudeu.

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4.
DÚVIDA CRUEL

entre o ódio classista
e o afeto familiar,
não sei o que fazer:
desistir
pirar
morrer

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5.
VÃ GOGA

e eu assim
tão inflado
tão
egônico
epigônico
agônico...
e o meio assim
tão rizômico
tão
randômico
atômico
prodrômico
babilônico

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6.
QUEDA DE BRAÇO

definitivamente:
tudo é desencontro,
medições de força,
egotismo tonto

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7.
LETRA DE MÚSICA

Quando os sonhos ruírem,
baby,
passe por mim:
eu sou sem sonhos.
Me atravesse.
Quando as ilusões morrerem,
baby,
passe por mim:
eu não tenho ilusões.
Quandos os castelos de areia
desmoronarem,
baby,
passe por mim:
eu nunca fui príncipe
nem sonhei com princesas.
Me atravesse.
Quando o cansaço
finalmente chegar,
descanse um pouco
em mim,
nestes loucos braços,
e vá em frente:
supere-se.
Não há portos aqui.
Nem paradas eternas.
Sou ponte.
Passagem.

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8.

CONVERGÊNCIAS

Eu não sou diferente.
Ninguém é diferente.
Todos temos dores
e necessidades
em comum,
como também temos
dores e necessidades
particulares.
( Nós, poetas,

 não somos marcianos ).

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9.

DESENCONTRO

era tão conotativo
mas tão conotativo
era tão hermético
mas tão hermético
era tão indireto
mas tão indireto
que ele disse
luz
e eu pensei
que ele havia dito
nada

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10.

SIMPLES

Pássaros são pássaros
e répteis são répteis.
Pássaros não são melhores
que répteis.
Répteis não são melhores
que pássaros.
Apenas os pássaros são pássaros
e os répteis são répteis.



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