quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

POESIA



tem sido a serotonina
minha droga principal
mas às vezes eu também
bebo muita dopamina
pra esquentar o miôlo
e azarar as minina

na Internet das Coisas
minhas ondas cerebrais
fazem fuxicos danados
no esgoto das capitais
causando formigamento
eticeta e coisa e tais
  
Não estou vendendo quimeras:
portanto não sou daqui.
Mesmo vindo de outras eras,
não aguento mais esse ti-ti-ti
de obsessões e cóleras,
ou essa vontade de fugir.
  
não aguento mais tanta nóia
nem o cerco dos noiados:
vou mimbora para Tróia,
e Deus cuide dos malvados.
Não quero mais paranóia
nessa vida de danados.

um bem aplicado boquete
é arte bem complicada:
uma técnica competente
nos detalhes antenada
no meio da chapa quente
estimulando a papada.

esse sangue que vos dou
não é suco de groselha
é sangue de trabalhador
das barricadas de Marselha
bem temperado na dor
de mil histórias bem velhas
  
a cantoria repentista começou
nas vilas da antiga Provença
onde um rapsodo entortou
e um padre pediu a bença
quando uns escárnios escutou
numa cantiga de descrença
  
conflito de gerações
não é brincadeira esquizoide
nem pseudo-paraíso
de qualquer um debiloide
nem mesmo delírio virótico
de côrno intelectualóide
  
nunca fui de sabotagem
pois a minha luta é ética
não cultivo fuleragem
nem também nuvem patética
pois a minha antiga viagem
é de honestidade noética
  
o contador de sílabas está de volta
com a sua máquina de calcular
remoendo antigas cotas
com a cara de quenga no ar
e ruminando outras patotas
com medo de se cagar
  
o meu canto cinzento e pesado
não é qualquer um xeleléu:
é fogo rente e riscado
no meio do beleléu
trepidando seu bordado
muito bem longe do céu
  
eu não sou sindicalista,
pois sou mesmo escritor:
me tire da sua lista,
meu caro doutor professor:
tou longe da sua pista,
mas perto du istoupô







1.

ELA, A POESIA

Primeiro me apareceu como
uma enorme estátua tradicional
desabando sobre o meu corpo,
uma republiqueta neo-aristotélica
sem poetas tortos,
uma acadêmica avalanche
de deificados
para ser inquestionavelmente
adorada.
Fugi apavorado
e não tive o menor tempo
para sugar alguns bocados
da sua competência
lingüístico-formal.
Depois me apareceu como
romantismo babaca,
ditadura do superficial
em nome do povo,
disfarce vulgar
de fingimentos e pornografias.
Fugi desesperado mais uma vez,
e nem tive o menor tempo
para assimilar um pouco
das intensas revelações
do seu cerne diluído
na concretude cotidiana.
Agora vislumbro que ela
pode ser diferente,
embora permaneça incapaz
de neutralizar todo o seu joio.
Então ela vem
e atiça os humores transcendentes
das minhas precavidas
buscas abissais
e da minha esquisita
antropofagia por conta própria.
E emerge tudo aquilo
que foi represado
por todos os milênios
do môfo politiqueiro de sempre.
Mas derrepente
as suas tendências individualóides
me apunhalam pelas costas,
e nada me resta senão
relaxar e gozar
o estupro de sua cínica multidão
de pequenos vampiros
egóticos.
E emerge alteregos
indesejáveis
para manipular
minha personalidade.
Prolonga minha adolescência
pra muito além do aceitável.
Me enlança em tentáculos
dos seus labirintos
sem fio de Ariadne.
Tritura inescrupulosamente
meus últimos vestígios de lucidez.
Por que todo esse jogo duro
pra cima de mim?
Sou apenas um escrevinhador
contingente,
poetinha bissexto
e tragicômico,
perdido entre as garras
da sociedade tecnocrata,
agora ainda mais perversa
e global.
Penso em deixar de ser poeta,
em abandonar a Dona Poésis
pra que possa viver
a vida normal de todos os homens,
falsamente
sem desconfianças nem conflitos,
biritando, sambando,
batendo peladas,
indo à missa aos domingos,
acompanhando novelas,
fuxicando
na pracinha
em frente à igreja.
Mas logo estou desejando
a dama doida
outra vez.
E vejo-a em tudo:
nas nuvens,
nas ruas,
nos confins do universo,
à flor da pele,
no caos atômico,
na porcaria
que os esgotos derramam
no Capibaribe.
Agora observo-a pesquisando
os limites da consciência,
mas nem sempre sei
onde ela é
conhecimento sério
ou apenas isca
para pescar almas.
Como posso presumir
seus desejos?
Onde devo mesmo procurá-la?
E então...
imprevisivelmente
ela me dá
uma chance
e me deixa apalpar
a sua natureza
fugidia.
Mas eu vinha dedicando-lhe
noventa por cento
do meu tempo livre.
O que mais ela queria de mim?
Que eu sublimasse
toda minha libido
e ofertasse em holocausto
no mais alto píncaro
da mais inacessível montanha?
Constantemente me flagro
conversando abobrinhas
com a minha sombra.
Desenhando poemas
mentalmente absorto
em meio ao rush.
Anotando idéias repentinas
na cadernetinha.
Grifando termos exóticos
no Aurélio sessentão.
Imerso em divagações
enteomaníacas
e vingativas.
(Acho mesmo que estou
ficando doido
por causa dela.
Ando mais tinhoso
que o Villon.
Perdi o contato com a
espontaneidade
devido aos excessos
introspectivos.)
Mas apesar de todos os riscos
vou abrir as pernas
pra sua explosão artística.
Então ela vem
e me traz as migalhas
de sua autopercepção
aguda,
como um molusco enroscado
sobre si mesmo,
uroboro
com descargas intuitivas
brotando da
eroticidade transmutada.
Vênus purificada
com os órgãos sexuais
arreganhados para o Cosmos,
aventureiro superior
que atravessou e venceu
o Estige.
E aí ela vem mesmo
e me fecunda
com a fartura
de suas raízes sensitivas.
Fúrias ontológicas jorrando
como gêiser mirabolante.
Imagens mentais surgindo
como inebriantes
fogos de artifício.
Subjetivas inóspitas
regiões ímpares.
Garotos sensíveis fabricando
os seus próprios biscoitos finos.
Novas sugestões místicas
como substitutas para
as religiões degeneradas.
Antídotos para a selvageria
mercadológica e ditatorial.
Remédios para o tédio.
Refinadas sensibilidades
redefinindo sentimentos.
Compartimentos ruindo
como castelos de areia
em ventanias.
Opostos em desabaladas
sínteses
autotranscendentes.
E eu, entorpecido,
cavalgado, dirigido,
iluminadamente
insano,
sorvo os abismos
e miasmas
melífluos
que brotam
do seu útero
pré-cósmico,
inabarcável,
insondável,
randômico,
inexplicavelmente
fractal.

*************************************
2.
MISTERIUM
TREMENDUM

criatividade
não tem
idade

***************************
3.
VIRADA
FATÍDICA
As medusas
venceram.
Perseu
se fudeu.

**************

4.
DÚVIDA CRUEL

entre o ódio classista
e o afeto familiar,
não sei o que fazer:
desistir
pirar
morrer

*****************

5.

VÃ GOGA


e eu assim
tão inflado
tão
egônico
epigônico
agônico...
e o meio assim
tão rizômico
tão
randômico
atômico
prodrômico
babilônico

*************
6.
QUEDA DE BRAÇO

definitivamente:
tudo é desencontro,
medições de força,
egotismo tonto

*******************
7.
LETRA DE MÚSICA

Quando os sonhos ruírem,
baby,
passe por mim:
eu sou sem sonhos.
Me atravesse.
Quando as ilusões morrerem,
baby,
passe por mim:
eu não tenho ilusões.
Quandos os castelos de areia
desmoronarem,
baby,
passe por mim:
eu nunca fui príncipe
nem sonhei com princesas.
Me atravesse.
Quando o cansaço
finalmente chegar,
descanse um pouco
em mim,
nestes loucos braços,
e vá em frente:
supere-se.
Não há portos aqui.
Nem paradas eternas.
Sou ponte.
Passagem.

********************
8.

CONVERGÊNCIAS

Eu não sou diferente.
Ninguém é diferente.
Todos temos dores
e necessidades
em comum,
como também temos
dores e necessidades
particulares.
( Nós, poetas,

 não somos marcianos ).

***************************

9.

DESENCONTRO

era tão conotativo
mas tão conotativo
era tão hermético
mas tão hermético
era tão indireto
mas tão indireto
que ele disse
luz
e eu pensei
que ele havia dito
nada

************************

10.

SIMPLES

Pássaros são pássaros
e répteis são répteis.
Pássaros não são melhores
que répteis.
Répteis não são melhores
que pássaros.
Apenas os pássaros são pássaros
e os répteis são répteis.


___________________________________________________________________

DESPEDIDA
(prosas poéticas na despedida)


(Zé do Sonho)

_____________________________________________


Aqui me despeço
de todos vocês.
E me desfaço
em energias sutis, microondas
e antipartículas.
Quando quiserem encontrar-me
novamente,
poderão me ver facilmente
nas cognições
de outras sinapses,
ressurgidas em mares revoltos
da bioquímica neuronial.
No pasto dos oásis,
no brejo das montanhas,
nas chuvas de verão
brotando da medula óssea
da Via Láctea.
Novas ânsias justiceiras ressurgindo
em corações andróginos e bipolares.

Então refaço o perdão profundo
dos semi-deuses angustiados,
a todas as criaturas sencientes
e a todas as energias hadrônicas.
Mas ainda carrego mágoas
de criança ferida.
Porém minhas dores, e sacrifícios,
vou incinerá-los no altar
de todas as ressurgências
e de todas as vidas plenas.

O que em mim é patologia momentânea,
ou desequilíbrio contextual,
ficará por conta do lado B
do Universo.
Das inevitáveis bipolaridades
e multiplicidades
em tudo.

...

Quero que tenhas sempre
a barriga cheia.
Quero te ver brilhando.
Ressurgindo brilhante
Em meio aos fogos-de-artifício
das chamas vitais
de todas as galáxias.

Quero-te criativo. Mas centrado, e lúcido.
Sem ilusões derrapantes,
nem abismos invisíveis.
Nem vales sombrios sugantes.
Sem fomes periódicas.
Nem subnutrição infantil.
Cheio de netos e bisnetos
“índigos”.

...

Se eu começar a chorar agora,
sei que vão dizer que estou
seriamente perturbado, incapaz.
E algum sofismo behaviorista
Vai querer me internar.
E destruir, com 440 volts no cerebelo,
no tutano das têmporas,
a minha percepção ampliada
(a muito custo).
Vão dizer, certamente,
que eu estou ouvindo vozes
e vendo sombras fantasmais.

Tenham dó.
Basta apenas um pouco
de misericórdia.
E compreensão.
E coexistência admitida,
mesmo tensa.

...

Entretanto, contudo, todavia,
não tenho forças pessoais
para impedir outros rastros sanguíneos
do novo cangaço
e do velho capitalismo neo-liberal
renomeado e recauchutado
para engabelar e corromper
sub-áreas da mestiçagem
latino-americana.
Reverberando feixes de microondas fatais.
Lêiseres de outros quasares.
Bits infinitesimais esquartejados
entre bósons purgatoriais.
O horror esquizóide fragmentado.
O caos criativo das lombras avatáricas,
dialeticamente ouriçadas,
entre vultos escuros,
mas invisíveis,
indetectáveis.

...

Mas o lado B,
de todos os fenômenos terráqueos,
também é luz,
segundo os monges essênios.
Tudo se transforrmando em tudo.
Fótons, sub-partículas, bits, ondas,
calor.
Incrivelmente. Destrambelhadamente.

E sendo assim...
eu necessito urgentemente
transferir algumas responsabilidades pontuais
para a Terra, e a Via Láctea.
Eu sei apenas que estou aqui,
entre vocês todos ,
sem nunca entender o porquê,
e prenhe de ânsias cognitivas
inúteis, traumatizantes,
( em vão ),
e estupefato diante de ti,
meu irmão de agruras,
e viagens tortas.

...

No entanto celebro mais este encontro.
Beberemos a sangria de todas as galáxias
e buracos negros.
O néctar das mênades transmutadas.
O louvor das ninfas do rio Beberibe.

Louvemos as multifaces infinitas de tudo.
A vida pletórica saudável,
surgindo do nada universal.
Os contrários alternando-se e misturando-se
eternamente:
declarados imortais por todos
os úteros do Cosmos.
E nós aqui,
inevitavelmente cúmplices.
Sem maiores álibis.

Mas em tudo vejo Deus.
No veneno das najas.
Nas redes de escorpiões machos.
Na vagina de todas as deusas
esteatopígicas,
reproduzindo genes de guerreiros cimérios,
e angicos.
Na poliglotia da rainha Nzinga,
e do rei Tibiriçá.
Nas hordas douradas
de tártaro-mongóis
subjugando varegues,
e bizantinos.
A natureza ressurgindo plena,
em probabilidades de interconexões.

Eu ressurgido diante de ti.
Eu transmutado.
Eu duplo.
Eu múltiplo.
Eu observando
e participando.
Fora e dentro.
E vice-versa.
Observador e observado.

Eu desdobrado.
Eu bi.
Eu largo.
Eu amplo
Eu tudo.


Todos os chumbos
e todas as lâminas
trespassando
o Sexto Chacra,
a papoula do Quarto Patriarca.
A jurema do xamã
capixaba.
Os fungos dos tauramaras.
As liambas dos sacerdotes incas,
nos ultramisteriosos caminhos
das ruas sinuosas do Paebirú.
A tuberculose
de Tereze Lisieux
e Castro Alves.
Os surtos esquisitos
de Munch e Lutero.
Os feixes intuitivos
da tigela de arroz
do monge Demian Baskerville.
A herança genética
de Pinzon e Atahualpa.
Os acordes da harpa de Davi...
que acalmavam Saul...
e tranquilizavam os nervos
de Gezabel e Jeú.

...

Mas agora novamente estou retornando
para os inarredáveis pântanos
movediços
do Vale das Caveiras.
Horrivelmente purgativo.
Purgando rancores cristalizados.
Trágico e patético.
(incluindo a autoflagelação
dos templários bizantinos
e teutônicos.)

E todo esse fogo purificador
está diante de ti.
Com todos os detalhes lúgubres.
Tou jogando aberto e honesto,
e tu és testemunha...
de que eu aceito ser mais um
bode expiatório mestiço
sangrando catarses.
Dando a vida
a quem está sob sérias suspeitas
terrenas, seculares, galácticas.


Desço agora a mesma ladeira
pavorosa e traiçoeira
de ontem,
aos tombos.
Cíclicas perambulações nebulosas
retornam ao mesmo segredo
inabarcável
de anteontem.
De antes do Big Bang.
Pletórico e polissêmico.
Indigesto em alguns pontos mais íntimos,
impenetráveis para o ego humano.
E eu estou pedindo apenas um pouco
de compreensão e coexistência.
Nada mais que isso.
Basta-me, por enquanto.


E sobre as últimas sangas desnorteantes
dentre estrangulamentos mórficos...
que sabotaram os últimos resquícios
de equilíbrios milagrosos,
das últimas luzes frágeis
no fim do túnel quântico embaçado,
...
tenho a dizer-te o mesmo de sempre:
ninguém conseguiu destrinchá-los.
Estas reentrâncias miríficas evaporadas.
E não seria eu quem iria sobrepujá-los:
não tenho potencial suficiente pra isso.
Não recebi essa dádiva específica.
Então não é a mim que vocês devem cobrar.
Apontem suas flechas incendiárias
para determinados avatares fundamentalistas
ou totalitários.
Não sou avatar. Nem iluminado.
Sou poetinha perturbado.
Ainda estou enredado nos laços
da neurose e dos excessos de angústia.
Por essas e outras, meus caros,
apontem suas lanças cósmicas
pra outro cordeiro literário
atarantado.

Antes do Fim.
Pois este que aqui vos fala,
está mais inseguro e transtornado
do que o sangue das sabinas
ao serem raptadas pelos latinos.
Está mais agoniado e horrorizado
do que os cofres de Roma e do Vaticano
diante das hordas asiáticas e proto-germânicas.

Sejamos mais lúcidos:
vamos dividir honestamente
as culpas
antes do Fim.

E...
embora compreender não seja
desarmar-se totalmente,
eu aqui me despeço
com o coração dilatado,
e garanto
que vos compreendo.
Antes de partir
para Andrômeda
ou Nibiru.
Ou voltar para o nada
através do Big Crunch.
E quando quiserem rever-me
novamente,
poderão encontrar-me facilmente
nas chuvas finas noturnas
que caem nas pequenas serras tortas
do Planalto da Borborema,
ou nos escuros mangues litorâneos
da noite Recifense.

E depois perdoai
as minhas chuvas de mágoas
classistas e comportamentais.
Pois deixo-te o meu soft
cromossômico e neuronial.
Minha carne psíquica atarantada.
Meu vinho epistêmico angustiado.

Comei e bebei todos vós.
Este é o meu sangue e os meus ossos.


“Tudo é experiência. E nada é rancor.”




O autor

Zé do Sonho é um dos pseudônimos de José Luís Miranda, também conhecido como “Poeta Lara” ou apenas “LARA”, ou Zé de Lara.
Nasceu em 01/12/60, em Bom Conselho (PE), no agreste meridional.
Participou, informalmente, do Movimento de Escritores Independentes em Pernambuco.
É autodidata. Foi também recitador, e participou de recitais poéticos no Recife e em outras cidades do Nordeste do Brasil.


(dezembro – 2018)

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