segunda-feira, 9 de agosto de 2010

NOVELAS



NEM TUDO SÃO FLORES NO
PAÍS DOS ARTISTAS.
(novela superrealista
e experimental)


Zé de Lara


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PARTE 1

Conheci pessoalmente o famoso e badalado escritor Justino Fialho, conhecido na intimidade como JU. (uma estrela literária).
Ele era obcecado: tinha a mania fixa de querer “repetir” Balzac, ou ultrapassar as fronteiras literárias do Romantismo-Realismo Europeu (um estranho “complexo de francês”: como dizem os saudosíssimos poetinhas ex-comungados).
Mas eu sempre disse pra ele que a linha evolutiva que vai de Stendhal a Zola é uma linha curva oscilante, cheia de tsunâmis, abismos e imprevistos fatais. E ainda por cima insuficientemente politizada.
Porém...
assim tão transtornado entre o limbo e o purgatório, ELE nunca me deu ouvidos. Justamente eu que sempre repeti, pra ELE, à exaustão, os detalhes de entreveros sanguinários e mortais entre canônicos, regionalistas e “amaldiçoados”. Principalmente o sangue que rolou nas calçadas da Questão Coimbrã.
E não venham me dizer que eu estou escrevendo esse romance por inveja. Ou egolombra; pra me vingar da fama e do dinheiro dele, já que eu também sou escritor, mas sem nenhuma fama ou “pecúnia”.
Desencontrado e desnorteado entre grandes poderes, e afetos mínimos, EU estou, reconhecidamente, pra lá do sangue ancestral derramado nas serras frias do Planalto da Borborema desaguando no Açude do Bodocongó.

EU tou apenas querendo revelar algumas fofocas subterrâneas e titicas de bastidores. Contribuir para a evolução da consciência humana. E não querendo me vingar da glória individual, ou da fortuna, de fulano ou sicrano cooptados pela burguesia caucasiana dantanho.

Ju é um canalhinha egolombrado, um invejoso incurável. Um vampirinho individualista disfarçado de artista transgressor. Ele sempre viu a Literatura Marginal como uma concorrência a ser eliminada.
Tem sangue de degredado, e alma de corrupto neo-liberal, apesar da “escatologia” caótica que usa na sua literatura estreita, pra disfarçar seus pendores para o catolicismo sertanejo “à direita”, e angariar algum apoio ente a juventude “transviada”.
A tática é desviar das relações-de-produção. Jogar pra debaixo dos panos. Limitar. E usar uma certa dosagem de “escatologia” pra disfarçar.
Empurrar com a barriga, desviando.
Indisfarçavelmente “centro-direitista”, faz discursos de socialismo “fabiano” à centro-esquerda, mas baba os óvos dos católicos carismáticos, nos bastidores.
Tou dizendo isso depois que ele morreu, é verdade.
Mas ele escreve mesmo uma literatura “escatológica” insuficientemente crítica, evitando maiores detalhamentos dos meandros do Poder e das relações de produção, principalmente; e evitando também o aprofundamento detalhado das críticas social e existencial. Mas os problemas maiores são os plantadores de eucalipto transgênico e a majoração do preço do livro, incluindo os intermediários da venda de 80 páginas em formato pocket por 40 reais.
Eu, hein??


Babi era a principal amante no harém de Justino.
Elanor era a “esposa” oficial (sempre brilhante nas festinhas da elite potiguar).
Sou 12 anos mais jovem que Ju. Mas algumas vezes tomei umas boas carraspanas com ele nos barzinhos da classe média “intelectualóide”,
e sempre me embebedava antes dele, que aguentava muito álcool, principalmente uísque e conhaque.
Babí era esquizóide, e tinha surtos horríveis com frequência.
Mas eu nunca assediei Babí.
Quem assediou muito Babí foram os
vendedores de quimeras.
Os Quixotes e Peters Pans incuráveis.
Os “negativistas” unilaterais e autodestrutivos.


Justino nunca deu o cu. Nem chupou rôla.
Isso eu confirmo. É macho hétero.
Cabra da Peste. Patriarca nordestino fora de qualquer suspeita bi. Macho alfa. Aristocracia carne-de-bode. Elite católica da zona da mata. Grande intelectual dos simulacros do jornalismo cotidiano. Um bate-estaca medianeiro à sombra de Gutemberg.
Eu não era exatamente um amigo dele.
Eu tinha apenas uma certa aproximação, um trânsito, um diálogo.
Amizade mesmo, propriamente dita, é outra “coisa”.
Bebemos juntos várias vezes, principalmente no Bar do Mocó, à beira do pequeno açude da Praça Jararaca, próximo à Avenida Tabajara:
falando mal das feministas estreitas e das cinderelas incuravelmente “estereotipadas”.
E dos fanáticos por futebol também.


O meu uso eventual de maconha é “fichinha” perto do conhaque, do cigarro industrializado e dos energéticos de Justino. Sem falar no colesterol de bode, pelo qual tinha grande paixão. E os conservantes nunca foram uma preocupação diária pra ele. A maconha não é inofensiva, mas o que é mortífero mesmo é o acúmulo de gordura-trans, glicose, acidulantes, espessantes, álcool, picâncias, cinzas, etc.
Primeiro o enfarto. Depois a esclerose. Intoxicação geral do sangue. Reumosidades irreversíveis no tutano dos ossos. Degeneração progressiva geral. Enxugamento gradual das funções vitais. Deficiência paulatina do sistema imunológico até a hora da morte. Capitulação orgânica resultante de acúmulos e acúmulos.
Até aí tudo bem. Tá valendo a liberdade individual. A opção pessoal. Mas ele sempre foi contra a legalização da maconha, seguindo o rastro do conservadorismo existencial do catolicismo carismático. E outra coisa: quem me garante que ele não fumava a ganja escondido? A canábis estimula a criatividade artística e intuitiva. É um fato.
Quem me garante que ele não fumava eventualmente maconha pra catalisar a criação literária?

O projeto literário de Justino é um mero esquemazinho neo-balzaquiano.
E eu digo isso não por inveja, ou baba de Caim.
Não estou mesmo preocupado com as suas traduções em Paris ou Buenos Aires. Nem com as adaptações para seriados globais. Tou preocupado com simetria sintática, harmonia entre sílabas, costura de frases e parágrafos, ritmo, diversidade estética e estilística. Né? Né não??
Quem não lembra da ojeriza que o Mário de Andrade nutria contra o minimalismo? Pra dar um exemplo concreto, já que os “formalistas russos” gostam tanto de enfatizar o formato em detrimento da mensagem. E o “new-criticism” não gosta de abordagens intuitivas ou randômicas na literatura.
Mas o fato é que o cara descobriu a fórmula estreita para vender livros de 90 páginas a 40 reais. Principalmente para adolescentes de 20 anos que ainda não consolidaram o gosto pela leitura. A fórmula previsível dos concursinhos literários e dos departamentos de Letras neo-românticos. A baba neo-balzaquiana do complexo de francês. Xeleléu de monjas siririqueiras à centro-direita “monarquista”.

As sinecuras centristas são outro detalhe da vida de Justino do qual sempre tive alguma mágoa classista. Não foram poucos os momentos da juventude dele em que babou o ôvo da “centrodireita” açucareira ou da aristocracia sertaneja, em troca de empreguinhos e esmolinhas para a sua família, antes da fama e da riqueza. Como se não bastasse a cooptação neoclássica, ou o besteirol matutista, ou o misticismo fosfórico de padrecos reacionários.
Estilisticamente, ele às vezes parecia um perfeccionista medianeiro obcecado por “bulas” do romantismo francês quase-realista: endeusamento de Stendhal e Victor Hugo, ou Flaubert, enquanto desviava a parte mais aprofundada do detalhamento de dominações ideológicas contextuais, usando o argumento capcioso de que o auge da literatura ocidental é Balzac, e de que os escritores alternativos padecem de amadorismo literário.
Acusar os outros de amadorismo é o mesmo que desqualificar profissionalmente todos os que não se encaixam na sua bula “francesa”. Né não??


PARTE 2


Quando Justino chegou do interior na metrópole potiguar, ele já tinha 20 anos. Era o ano das graças de 1965, no começo do auge do destrambelho hippie. Conseguiu emprego rapidamente na Prensa Potiguar, como jornalista investigativo, através do tráfico de influências que sempre ocorreu entre a aristocracia “sertaneja” do Bodocongó e a burguesia açucareira do litoral Caeté e Tupinambá. Um toma-lá-dá-cá das antigas sinhá-zinhas e sinhô-zinhos. Venda de votos e simonias entre o besteirol matutista, o neo-classicismo balzaquianista e o centrismo quase-neo-liberal.
(nada de crítica impressionista à esquerda, nem jornalismo gonzo politizado. Tudo no cabresto do “genial” jornalismo literário e da gloriosa herança regionalista dos incontáveis matutos imbecilizados pela pregação repetitiva dos factóides carismáticos, academicistas e globais. Uma estranha mistura entre Ariano Suassuna e Machado de Assis?? Não sei.
Não tenho certeza.
Um imbróglio pós-mediavalesco das sibitas encantadas. Dos neurônios e genes do professor Stendhal e da desnorteada prosa altamente formosa do gerente Flaubert.
Enquistar-se ideologicamente num falso “estado-de-bem-estar” nunca foi exatamente a minha estratégia preferida. Sempre preferi táticas mais diretas, e menos “evanescentes”. Se é mesmo “centrismo” com estratégia “etapista”, então eu assumo imediatamente que é “centrismo”, ora, ao invés de ficar escondendo ou empurrando com a barriga, nos subterrâneos, a minha verdadeira opção ideológica. (é sintomático quando ele endeusa Machado e rebaixa Zola.)
Mas obviamente não se trata de repetir Górki, nem Stendhal, ou Ariano.
Trata-se de Literatura Marginal mesmo. PROPRIAMENTE DITA.
Nenhum artista gosta de repetir. Todos os artistas querem ser originais: criar algum troço que ninguém pensou em criar. Mesmo que seja apenas alguma variante de “primitivismo” literário bem-costurado, e mesmo que este ainda seja um enorme tabu periculosíssimo para o cânone ocidental e saxônico-francês, para os arremedos e macaqueamentos da sintaxe e fonética francesas.

O desprezo que ele sentia pela poesia prosaica, e pelo minimalismo, fez com que sempre “endeusasse” os romances, e desprezasse a poesia como um “sub-gênero” menor. Mas nunca teve coragem de assumir essa posição pessoal publicamente. Sempre escondeu. Porém o cinismo egótico dele é tão grande que, quando o Bob Dylan ganhou o Nobel, ele prontamente passou a elogiar a prosa poética e o ritmo subjetivo como grandes referências para a criatividade literária, em todos os jornais do Nordeste.
Na verdade, ele pensou que a Academia Sueca continuaria lambendo as botas do romantismo francês eternamente. Nunca pensou na possibilidade de que o “primitivismo” poético poderia algum dia agradar ao gosto tão “extraordinário” da pequena burguesia européia.
Nunca pensou na possibilidade de que os vikings suecos e ostrogóticos, mais uma vez, abrissem fogo contra saxões, eslavos e mongóis. Nem que os monjolos abririam outra guerra tribal contra os imbangalas.

Quem foi que disse que memorialística não é literatura??
Quem é esse “ego inflado” que anda dizendo que autoficção não é criatividade literária??
POIS ATÉ A TRADUÇÃO EXIGE CRIATIVIDDAE LITERÁRIA.
E somente os donos da verdade “epistemológica” ocidental, os joãos-sabem-tudo da mundanidade estética, não querem admitir essa verdade óbvia de que a técnica “poética” e a beleza formal também podem ser encontradas na memorialística e na autoficção.
E Justino era um desses “joão-sabe-tudo”, dono-da-verdade estética e sintática.
Mas também não estou dizendo que ele era exatamente um “caipira estreito” ou um egoísta excessivo ultra-acadêmico. Não era bem isso. Não era exatamente “matutismo besteirol” nem “gongorismo clássico” engessado.
Tava mais pra agente literário da aristocracia francesa. Especificamente. Ou jornalista poliglota da maquinaria dos potiguares abastados e misturados com tamoios novo-ricos. Ou da “rocambolesca” mistura entre armorialismo e classicismo. (estranha mistura: muito estranha mesmo.)


PARTE 3

Todos os escritores famosos e ricos têm o seu harém. Não há nenhuma novidade nisso. E Babí era apenas a principal do harém: nada mais que isso. Não tinha o direito de posar como digníssima esposa, eternamente fiel, nas rodas da elite sertaneja ou metropolitana, mas nem sempre era ela que habitava as camas de Justino.
Pois este fulêro estava sempre alternando suas “garotas de programa” ou sonhadoras românticas incuravelmente obcecadas por ele, pela sua fama de escritor maior, pela sua badalada e originalíssima criatividade literária, e pelo seu dinheiro também.
Todavia...
Babí era esquizóide. E Justino era bipolar. Elanor era uma madame muito séria, cuidando do assistencialismo filantrópico abastado.
São muitos os que fazem caridade para não fazer transformação social. – já disseram (mas eu não lembro quem foi).
Quando digo isso, não estou pensando em internar os dois. Estou apenas planejando narrar determinados aspectos da nossa realidade fudida, mas sem puxar a brasa para a sardinha da contracultura. Tentando ser o mais objetivo possível, mesmo sabendo que é humanamente impossível atingir a objetividade total.

E não me peçam pra falar sobre a pistolagem das adjacências do Bodocongó. Esta não é bem a minha praia. Me poupem.
Que relação tem essa fulerage com a “multiplicidade de eus”?? (com o rizoma da Cabriola Enfeitiçada??)
Por favor! Não insistam.
Ou vocês estão falando prioritariamente de grandes calangos na brasa e saramunetes no “iscabreche”??
Esse papo de pistolas pequenas, e Taurus mínimos, não cabe aqui. Se liguem.
Não tentem entrar na minha literatura dessa forma tão escroque, de fininho, mas com a rôla dura apontando para o buraco da família de Justino.
EPA.
Já chega!
Me esperem na entrada do Teatro da Crueldade Surreal às 24:15 HORAS.
(não narrarei nenhuma morte nesta novela “furibunda”, embora elas tenham acontecido,
as mortes.)
Sim, aconteceram. Foram quatro. Espalhadas por diferentes locais do velho Nordeste lascado e fudido.
Com a palavra, a família Fialho Potiguar.

Nessa época, eram muito frequentes os surtos e as brigas terríveis entre Ju e Babí: dentes e costelas quebrados, ronchas de todo tamanho e profundidade, pancadas grandes nos joelhos, etc. Elanor acompanhava tudo isso de longe, fingindo um autocontrole que não possuía.
Justino foi preso três vezes, sob acusação de misoginia agressiva e ameaça de morte, mas sempre pagava fiança, e logo estava de volta outra vez.
Este “casal” foi o mais problemático e terrível entre todos os que eu conheci pessoalmente. Mas eu desconfio, seriamente, que Babí estava incuravelmente apaixonada, e não conseguia sair do “colo” de Ju. (por mais que tentasse).
Enfim: eram dois temperamentos agressivos e imprevisíveis: o “pós-machismo” sertanejo de Justino e a esquizofrenia desmiolada de Babí.
HAJA SURTOS. Dos dois.
Mas eu vou sim falar alguma coisa sobre as atividades de pistolagem da família Fialho Potiguar no agreste-sertão (principalmente).
A quantidade de mortes executadas e planejadas foram poucas, é verdade. Mas havia sim um núcleo de “coitos” e execuções nesta família. Afinal, é uma família de grandes fazendeiros e lojistas abastados de todo o interior da Paraíba e do rio grande do Norte, e ninguém mantém uma determinada quantidade de poder, por muito tempo, sem usar alguma dosagem de violência, direta ou indireta.
Quanto à esquizofrenia, ela existia mesmo nos genes da família Fialho Potiguar, embora o caso de Ju fosse de Transtorno Bipolar, mais exatamente, e não de esquizofrenia propriamente dita.
Nesse lance, os pendores “esquizos” de Babí entraram “de revestrés”, através de pára-quedas.
Mas o bostinha do Justino sempre falou mal da “multiplicidade de eus”: o que, pra ele, é negócio de delirantes excessivos, como se ele também não fosse muito bom do juízo.
Pois é. Então tá.


PARTE 4


Reconheço que são muitos os “micróbios” da marginalidade literária atanazando a vida de Ju.
Esculhambando e ameaçando. Mas a maioria desses “micróbios” não são escritores, nem artistas, num sentido geral. São boêmios que fingem que são escritores. Escreveram quinze ou vinte textos curtos em 30 anos, e passaram a maior parte da vida afundados em vícios e preguiças mentais. Usufruindo do ambiente degradado dos artistas transgressores da alta classe média. Usando a luta contra a “normose” como desculpa para a sua “malandragem” autodestrutiva.
Eu mesmo tive alguns bate-bocas com Justino. Mas escrevi doze livros. É uma “obra”: ele não pode negar isso. Se ele negar, então vou dizer o seguinte: reconheço que o grande artista Fialho Potiguar “obrou”, mas está me “difamando”, me desqualificando, tentando eliminar a concorrência.
Reconheço que usei mais a intuição do que as técnicas sistematizadas pelas oficinas literárias do Setorial de Linguística do Departamento Quadrado.
E permaneço monoglota e autodidata. Mesmo assim, ele não pode deixar de reconhecer que eu também sou escritor. Acho que ele fez aqueles elogios à prosa poética “alternativa”, um pouco antes de morrer, apenas porque o Bob Dylan ganhou o Nobel de Literatura. E continuou acreditando que a minha literatura “marginal” é de quinta categoria.
Sou um escritor menor, reconheço, admito.
Mas na cabecinha egolombrada dele, ninguém atingiu o seu altíssimo nível técnico e criativo. Ninguém leu mais manuais de teoria literária do que ele. Ninguém domina a língua francesa melhor do que ele. Ele é o Super-Balzac.
O Graciliano do Bodocongó. E eu nem estou colocando o “neo-reformismo” nessa discussão especificamente técnica. Nem tampouco a “nova esquerda” do século 22.

O parque editorial potiguar não tem mínimas condições de absorver tanto doido, ou boêmio inveterado, fingindo que é poeta ou prosador. Porém a indústria de celulose e branqueamento de papel é outro papo.
Na verdade, nem existe parque editorial, grande e propriamente dito, em Natal. Tudo não passa de pequenas editoras sobrevivendo às margens das gigantes da editoração. E tudo filtrado por opções ideológicas ou “existenciais” da velha e ancestral burguesia natalense. Da logística editorial da elite litorânea nos antigos domínios potiguares e caetés.
O maquinário da prensa Potiguar ainda é quase gutemberguiano, e só agora, em maio de 2017, a equipe de jornalistas começou a publicar a versão digital. Uma demora que deixou em suspense muitos investigadores e bisbilhoteiros da velha “imprensa” tabajara.


PARTE 5

Justino tinha uma relação de subserviência com os escritores famosos do sudeste-sul. Na verdade, os escritores com alguma fama costumam formar panelinhas e redes em todo o Brasil.
Nos concursos e prêmios literários nacionais, funciona o velho “me cita que eu te cito”, nas colunas do jornalismo cultural, uma babação de ovos recíproca, uma troca de favores culturais E IDEOLÓGICOS. Contagem de votos na boca da urna. Jabá dos novos escribas proto-farisaicos. (quem manda é quem paga ingresso).
Mas eu não vou ficar blindando a “contracultura”, por essas e outras.
Afinal, sou assalariado, ou agricultor, e não “hipster”, ou “beatnik”. Ou neo-franciscano multicolorido. Meu compromisso é mostrar sempre a bipolaridade de cada fenômeno terráqueo. Os dois lados de cada campo “epistêmico”. Sem blindar ninguém. Não escapa nem o extraordinário “corcunda de notre dame”. Ou o Guru do Sacrequé. Não escapa ninguém, nem mesmo Jesus. Porque a Morte matou Tibério e matou Cristo também. Matou os dois.
E eu estou aqui arrombado e fudido, sob os terrores noturnos do império de Justino, o Grande, na travessia noturna de um infindável cemitério gótico e tártaro. Num vale de ossos e caveiras. Enfrentando vampiros e dondocas fatais da nova burguesia pampeira dos infernos do Sistema Patriarcal Caucasiano e Carolíngio.
Qué isso, meu povo?? Tão me estranhando??

Mas eu sei dos aspectos positivos da literatura de Justino, e sei também dos aspectos negativos da “contracultura”. Vejo os dois lados de cada campo cultural.
O nobre Ju tinha uma enorme capacidade de trabalho e esforço pessoal. Paciência e disposição pra usar e repetir o “buril” quando é necessário repetir ou desmanchar pra fazer de novo. Então ele consegue chegar no nível estilístico de um Balzac ou Flaubert, depois de muito esforço. Mas o conteúdo deixa muito a desejar quando o assunto é distribuição de renda, mecanismos de poder e transformação social, ou seja: a literatura como auxiliar das Ciências Humanas (uma missão mais importante que o aperfeiçoamento estilístico e a costura sintática, a meu ver). Embora haja, na literatura “justiniana”, alguns detalhamentos da problemática existencial e comportamental, às vezes numa abordagem escatológica. (Não esqueçam que o Kerouac, por exemplo, terminou como um católico politicamente “centrista”.)


Acreditem: eu não tenho a menor intenção de difamar Ju. Quero apenas botar alguns pontos em alguns “is”. Revelar algumas verdades da mundanidade literária brasileira que a maioria não tem coragem de falar. Por exemplo: indústrias de celulose e branqueamento de papel. Majoração do preço final do livro de papel. Problemas ambientais gravíssimos decorrentes das plantações de eucalipto transgênico. ETC.
Ele sempre dizia que esse é um problema antigo que não tem solução, que é melhor conformar-se e deixar tudo continuar assim mesmo. Na verdade, todos os que estão ganhando algum dinheiro com essa situação não querem mudanças. Mas as possibilidades para baixar preços são maiores com o livro digital, se a ganância dos editores que publicam em papel, e o ego dos autores, permitirem a livre existência de concorrentes digitais e um mínimo de abaixamento nos preços em geral.

Outra nuance da personalidade de Justino que me enchia muito o saco era a certeza de que ele era um gênio. Que a sua técnica, a sua criatividade e a sua importância cultural eram de nível muito superior, e estariam no patamar dos grandes literatos e pensadores ocidentais. Que a sua defesa da identidade étnica nordestina e do cânone ocidental eram superiores, tanto na linguagem quanto no enredo e na mensagem. Eu tenho minhas dúvidas, e preciso ter coragem pra falar sobre elas. Sem medo e sem ódio.
Pra mim, Justino, na verdade, é apenas mediano. Não é gênio.
Eu também não sou gênio, mas valorizo com sinceridade e desapego o valor da minha contribuição pessoal, tanto na Literatura quanto na Filosofia, incluindo a parte de sacrifício pessoal, além do trabalho pesado de escrever, revisar, pesquisar, repensar, etc. Por falar nisso, é bom lembrar que a Literatura de Tese nunca foi bem vista por ele. Mas até aí tudo bem: democracia é pra todo mundo: e cada um escolhe sua “igreja”. Numa boa. O problema é que ele é daqueles que estão sempre rotulando qual literatura é de primeira ou de quinta.
Pra ele, Victor Hugo é de primeira. E Bukowski é de quinta. Já eu não tenho assim tanta certeza dessa verticalidade imutável e eterna. SACOU??
Por esse mesmo raciocínio, Truman Capote seria carne de primeira, e Allen Ginsberg seria carne de terceira. SACOU??

Outro lance que me perturba muito é essa história de sempre colocar a técnica como mais importante que a intuição.
A técnica é um serviçal da intuição, e não o contrário. Se não é assim, acaba-se nos braços de um parnasianismo qualquer. A função da técnica é apenas o acabamento, os retoques finais. A intuição deve estar sempre no comando. Não sou contador de sílabas. Sou poeta.
Eu até reconheço a importância da sistematização teórica para os “iniciados”, no campo da poesia e da prosa (as famosas oficinas de criação literária, de iniciativa privada ou dos setores de extensão cultural das universidades e academias), que estão virando febre entre tantos jovens no início da juventude. Mas fazer da terminologia acadêmica a referência principal em todos os casos é um exagero exclusivista. Pra não dizer “eliminação da concorrência”; incluindo neste raciocínio tudo que brota e emerge diretamente do Inconsciente Coletivo.

E havia também os altos cargos comissionados exercidos em diferentes instituições públicas, como foi o caso na Pró-Reitoria de Pesquisa da UFRN, onde ele trabalhou como assessor especial durante três anos, com salário de 10 mil reais. Foi um tempo em que as suas elucubrações “existenciais” e linguísticas, junto com alguns sindicalistas do serviço público estadual, mais aproximaram-se do centrismo político e do cânone ocidental. Ele então, nessa época, circulava bem mais entre eminências pardas da alta burocracia potiguar e cearense do que entre poetas e escrevinhadores ficcionais. E seus desafetos não eram apenas do mundo artístico e cultural. Eram uma fauna bem diversificada, e incluíam tanto “micróbios” contraculturais quanto sindicalistas da velha esquerda marxista, em meio a uma fofocagem geral, muito perigosa, que algumas vezes desembocava em bate-bocas ensandecidos e brigas físicas (mais raramente).

Solidão nunca foi problema pra Justino, pois ele sempre estava cercado de bajuladores. E, como era um “vulgarizador” competente, que agradava ao leitor médio, nunca sofreu do suplício existencial dos pioneiros e antecipadores, nem sofreu as dores da pobreza, pois era filhote da classe média, e teve a sorte de fazer sucesso com o seu primeiro romance, ainda jovem, com 32 anos.
Mas a chegada da década de 80 trouxe um clima anticapitalista bastante acentuado, e os questionamentos comportamentais também começaram a esquentar e se ampliar, o que fez com que Justino, algumas vezes, passasse por maus bocados no enfrentamento com os “alternativos” e neo-engajados da década de 80, embora essas guerrinhas nunca resultassem em entreveros mais graves. As cantigas de escárnio que os micróbios “alternativos” fizeram pra Justino não se comparam, por exemplo, com a “carnificina” entre realistas e românticos na Questão Coimbrã, ou entre os formalistas russos e o realismo socialista.

Melancolia é, também, um prato que Justino nunca experimentou. Pois tinha um temperamento extrovertido e festeiro, que foi gasto com garotas de programa e “cachaçadas” infindáveis.
Uísque e putas de luxo.
Encontramo-nos várias vezes nos puteiros de Natal e Fortaleza, entre meados da década de 70 e o início da década de 80. Eu iniciando a juventude, e ele começando sua fase de adulto jovem. São lembranças medonhas, daquelas noites exóticas nas ruas antigas de duas velhas capitais. Lembranças cristalizadas em outra dimensão. Em outros momentos que não mais se repetirão.


A relação de Justino com a mídia em geral merecia um capítulo à parte, por tantos conluios centristas quase-neo-liberais, e tantos simulacros ideológicos e epistêmicos repassados através de factóides cotidianos e banais em papel ou “pendráives”. Mas sempre posando de bom católico. Em meio à biritagem e à raparigagem “clandestinas”, até começarem os primeiros sintomas de esclerose, quando ele chegou aos 65 anos.
Mas eu não vou fazer, aqui, mil arrodeios teóricos sobre a “sociedade do espetáculo” ou sobre jabás e “cooptações culturais”. Outros pensadores já fizeram. Há sistematizações à disposição. Eu não preciso detalhar aqui todos os meandros dos velhos e novos simulacros dos meios de comunicação em geral, com raras e honrosas exceções.


Sei que muita gente vai me achar presunçoso.
Como é que um escritorzinho “sem eira nem beira” tem coragem de atacar um grande escritor reconhecido e aplaudido em toda a América Latina? Então eu seria mesmo um autodidata presunçoso atacando um mestre em Teoria Literária? Seria por inveja ou loucura egótica?
Nem uma coisa nem outra. Eu estou apenas tendo a coragem de falar certas verdades existenciais e políticas. Não estou nem mesmo entrando numa disputa pessoal com Justino. Quero apenas contribuir com a luta cultural para desmitificar celebridades e unanimidades, que é uma luta geral, e não uma guerra específica contra determinada pessoa.
Não invejo a literatura de Justino Fialho. Mas reconheço que invejo o uísque escocês, as lagostas e as putas de luxo, embora eu prefira o licor de pitanga e o caldinho de polvo.
Entre Justino e Górki, eu escolho o Górki.
Entre Justino e Ginsberg, eu escolho o Ginsberg.


No fundo do fundo, Ju é um conformista. Um pessimista com pendores misantrópicos e misóginos mal-disfarçados. Seu catolicismo sertanejo e sua escatologia literária são oportunismos ideológicos. Estratégias culturais para manter privilégios pessoais e vantagens editoriais no centro do redemoinho dos “podres poderes” e tráficos de influências. Uma escatologia sem crítica social aprofundada, uma merdinha insuficientemente crítica, boiando na superfície dos limites neo-liberais e neo-clássicos, ou em alguma variante do novo simbolismo hermético. Pra mim, o “pessimismo conformista” é um dos “memes” mais poderosos. E ficou cristalizado na relação entre os cromossomos e os neurônios; na indecifrável relação entre Genética e Memética. É bronca pesada.


Truman Capote dizia sobre Jack Kerouac: “Ele não é um escritor. É um datilógrafo.”
Vamos admitir: é um desafôro da peste. Um descalabro da bobônica. Uma declaração de guerra. Mas eu vi, nos primórdios da década de 80, superdoutores dizerem que poesia marginal não é poesia. E diziam com muita convicção. De peito cheio.
Quer dizer: o amador sempre sou eu; o embusteiro. Os outros são profissionais. Sou eu quem sempre coloca a intuição acima da técnica, e isso é uma heresia inaceitável. Mas nós somos obrigados a achar tudo isso normal e recomendável para os nossos netos e bisnetos. É muito sapo-cururu pra ser engolido como o veneno mais doce e corriqueiro do mundo. Um sapão inchado, superdoutoral e ultratecnicista da gôta serena. Um estilo excessivamente meloso e um enredo excessivamente alongado, enjoadíssimo, mas que precisamos encarar e engolir como se fosse o auge da genialidade literária e metafórica. Profissionalíssima.
Convenhamos: na direção desse caminho, eu serei sempre, inarredavelmente, apenas um individualistazinho obcecado por experimentações formais e experiências pessoais incompletas, que mais atrapalham do que ajudam a massagear o ego das grandes e altas literaturas, pois a minha é apenas uma punhetinha experimental que nunca atinge o ápice dos grandes profissionais e homens sérios da literatura canônica ocidental.
Mas eu poderia dizer, parodiando Ginsberg: “Todo mundo é sério. Menos eu.” (mas não vou ousar dizer. Não vou perturbar o sonho altamente técnico dos grandes escritores. Me poupem.)
Então tá. Deixemos as intrigas poéticas e prosaicas no fundo do baú, ou embaixo do tapete, por mais corriqueiras que sejam, e cuidemos das nossas bulas egóticas generalizadas, e dos nossos pacotes artísticos que sonham transformarem-se em referências eternas e inquestionáveis. O curral dos outros. O inferno estreito e misoneísta dos outros.


Justino também atuou como assessor cultural (cargo comissionado) na Fundação Estadual das Artes do Rio Grande do Norte (FUNART-RN). Desconfio seriamente, com o coração aberto e tranquilo, que ele apossou-se de inúmeros cachês miseráveis de alguns poetas “alternativos”. Cachês de 500 reais, no máximo, durante festivais de cultura e arte no estado do Rio Grande do Norte, e no Ceará também, através de convênios. Eu mesmo perdi alguns desses cachês pra ele, nos meus gloriosos tempos de declamador. Uma mixaria que fez muita falta PRA MIM. Mas eu sempre procurei evitar confrontos DIRETOS com Ju, embora eu reconheça que guardei algumas mágoas e rancores “classistas”, por conta desse despautério de apossar-se de mixarias que não significavam nada pra ele, mas que eram fundamentais para a minha sobrevivência imediata.


         Eu teria muito o que falar sobre a melancolia nos trópicos. Não sou eu apenas quem tem seus momentos de melancolia e acídia. Justino e sua herança genética também teriam muito a falar sobre estes dois assuntos espinhosos. Há momentos de altas glórias egóticas, efusivas, e há momentos de muita queda nos sonhos do ego pessoal, quando uma profunda tristeza, doentia, vem acompanhada de altas doses de culpa inconsciente ou, no máximo, semiconsciente. Numa hora dessas, qualquer “semideus” pode, de repente, afundar em pântanos profundos de tristeza patológica, à beira da depressão. Às vezes, das profundezas da Sombra Individual, à revelia da “função-de-ego”, sombrios arrependimentos emergem irreprimíveis e cinzentos, pesados.
         Geralmente são momentâneos, e logo se afastam, como “insights” negativos que rapidamente emergem e rapidamente somem. Mas deixam pequenas “manchas” psíquicas e espirituais que teimam em permanecer num “indo e vindo” medianamente frequente, mas que perturbam bastante quando chegam e ficam durante pouco tempo. E vão, aos poucos, acumulando devagar e, aqui e acolá, costumam injetar perturbações mentais atribulantes e sorumbáticas, embora não muito frequentes.
        

         E houve aquele período em que ele foi membro do Partido da Esquerda Democrática (PED) e da diretoria da União Brasileira de Escritores – Seção Potiguar: um ajuntamento de pequenos burgueses demagógicos que fingiam defender um estado-de-bem-estar que eles nunca aplicaram na prática. Pelo contrário: sempre foram caudatários de uma direita “mimética” que está sempre aplicando esquemas neo-liberais ou bastante assemelhados, em todo o Nordeste. (vampirinhos “de centro”). Uma horda de neo-simbolistas e escribas escatológicos, misturados com subsetores e sub-áreas de esquemas à direita de todos os tipos. (um romantismo renitente que se pretende neo-realista, mas termina sendo bem mais fantástico e mágico do que realista propriamente dito.)
         Sinto-me aperriado e doentio quando penso naquelas reuniões às oito da noite, pra decidir sobre simulacros e factoides editoriais e midiáticos. Com as assombrações de velhos fantasmas burgueses do início do século 19, perambulando pelos antigos cabarés de Natal e João pessoa, entre flagelados e tuberculosos. Nem mesmo Javé salvaria a alma pantanosa e fedorenta desses vampiros e vampiras daquela nascente burguesia balzaquiana e “armorial”.


          A praia preferida de Justino era Porto de Galinhas, em Pernambuco, embora ele preferisse passar a maior parte do seu tempo livre nas praias de Natal (sempre em praias com vida noturna). Paparicado, com um séquito e uma claque pronta para lamber-lhe os pés, ele circulava por todo o litoral nordestino como um pop-star, um burguês popular e badalado, curtindo as delícias de hotéis “cinco estrelas”.
         Mas ele dizia que tudo isso tinha sido conseguido com a sua genialidade prosaica. E não com a adaptação aos ditames da elite intelectualóide nordestina: ARMORIAL E ACADÊMICA (estranha mistura, estranho conluio.)
         Eu mesmo não arriscaria muitos mergulhos profundos nessas praias metafóricas, cheias de sargaços venenosos, redemoinhos e tubarões brancos. Um mar de piratas e príncipes tirânicos: todos sedentos para beber o sangue de quixotes desavisados. Com todos os brasões e armas assinaladas, de Pinzon a Tancredo.
        

         Eu nunca disse que as “nóias” de Ju são mais pesadas que as minhas.
Sempre reconheci que as minhas “nóias” são bem mais purgatoriais que as de Justino Potiguar. Devo reconhecer. Admito.
         Além do mais, o meu perfil mental é mais saturnino, uma espiral de redemoinhos para o lado de dentro (fractais brotando para o lado de dentro). Tem uma frequência maior de alternância entre opostos, e de clima cinzento também, embora não chegue a configurar uma patologia mental propriamente dita, ou seja: não há perda de consciência, não há saída do estado-de-vigília, não existe amnésia inconsciente. Tudo não passa de geleias quânticas labirínticas e nauseantes, onde labaferos sombrios costumam atropelar egos individuais inadvertidamente à beira de camisas-de-força contextuais, mas aterrorizantes o bastante pra despertar arrepios nos bastidores da corrente sanguínea do Sistema Nervoso Central.
         Algo que, com toda sinceridade, não seria recomendável para garotos de 15 anos. Por mais inteligentes e espertos que sejam.

         As aparições de Justinbo no meu Facebook eram rápidas e raras. Geralmente para anunciar algum evento literário ou cultural vinculado a homenagens à sua literatura. Mas nessa época já havia um certo distanciamento entre nós dois, por conta principalmente da relação “remosa” que havia entre o movimento cultural e a política no estado do Rio Grande do Norte e em todo o Nordeste, mas este era um imbróglio do qual ele nunca falava no Facebook. Ele preferia fazer elogios esparsos ao armorialismo e ao romantismo-realismo francês, espalhando textos ou entrevistas em jornais e revistas, incluindo os digitais. Os tropicalistas e “alternativos”, segundo ele, que cuidassem do seu próprio marketing, numa boa, cada um na sua.
         Eu mesmo nunca me preocupei com as “esmolas” de publicidade que o Ju arranjava em diferentes veículos. Eu sabia que as minhas posições culturais e epistemológicas, diferentes das dele, nunca permitiriam uma maior aproximação entre nós dois, e o que nos aproximava um pouco era apenas o amor à literatura, essa grande dama doida, essa estranha deusa das entranhas rizomáticas e abissais.
Além do mais, eu sempre vivi a literatura como uma espécie de obrigação cármica, de missão a ser cumprida, e nunca alimentei a ilusão de ganhar dinheiro com o tipo de literatura que eu fazia. Era purgação pessoal mesmo. Quixotismo purgatorial.


         Na velhice precoce, por conta dos excessos, Justino abusou do “fotoshop” na maioria das suas imagens usadas por sua equipe editorial em diferentes veículos de comunicação. E estava também cheio de dívidas, com mil e um agiotas no seu calcanhar, por conta de seus gastos com inúmeras putas de luxo, nas três Américas. E a esclerose não dava sinais de que iria recuar.
         Aconteceu então uma decadência que se acentuou rapidamente. Inexoravelmente. E Ju não durou muito tempo. Toda sua estrutura orgânica desmoronou. Murchou. Sumiu. E sua morte foi anunciada nas três Américas, e até na Europa, principalmente na França, Espanha e Portugal. E eu pensei: “O Brasil não perdeu grande coisa. Nem sempre o mais famoso é o melhor.” Mas depois pensei que não devia ter pensado assim. E me arrependi de assim ter pensado. Apesar de saber que ele não valorizava minha literatura.


         Outra obsessão de Ju eram as origens provençais da cantoria nordestina, além da transição do romantismo para o realismo na França, como já falei. Pra ele, as raízes mais fundas da cantoria sertaneja estariam nessa herança provençal que se espalhou para a Espanha e Portugal, e destes para o Nordeste do Brasil. Seria na herança musical desses rapsodos e aedos que os nordestinos deveriam procurar as mais remotas raízes da sua etnicidade e expressão cultural própria. Já o romantismo-realismo francês seria a contraparte intelectual, a parte pensante, o lado investigador das nuances existenciais e psicológicas da criatura humana em sentido geral.
         O problema é que, a partir da segunda metade do século 20, inúmeras novas nuances comportamentais, subjetivas e políticas estavam emergindo e deixando obsoletos os limites culturais de muitos regionalismos fechados em si mesmos e de propostas literárias ancoradas em movimentos que tiveram seus auges na segunda metade do século 19 e início do século 20,como foi o caso do romantismo português e do realismo francês. Mas esse é um papo que eu irei abordando aos poucos em outros momentos de outras passagens deste romance egotista e malassombrado.


         Ju subestimou o livro digital, ao qual não deu importância. Mas, nas proximidades de sua morte, as vendas de seus livros de papel já eram vendas bem abaixo do potencial antigo, do auge de sua glória. Os “tablets” já estavam disponibilizando livros em formato pocket com duzentas páginas por um preço de 7 ou 8 reais. Eu mesmo baixei muitos desses livros no meu “tablet”. E a maioria desses livros tinha um conteúdo bem diferente dos velhos “armorialismo medievalesco” e “romantismo-realismo francês”. Eis a dura e cruel realidade, a nova babilônia prosaica e poética do século 21.
         Jovens doutores interessados em filosofia quântica e distribuição de renda. Fazendo entrelaçamentos quânticos e justiça sócio-ambiental. Rizomas cósmicos. Metanóias terrenas. Avanços marcianos. É outra trupe. Outra história. Outro Mundo. Outra dimensão. E eu mesmo nunca fiz catimbó ou magia negra contra o livro de papel. Minha luta sempre foi pelo barateamento de todos os tipos de livros, e pela ampliação do conhecimento. Mas cada contexto tem as suas limitações específicas. Seus detalhes milimétricos. Suas injunções fuderosas irreprimíveis.


         Voltando pr’aquela história de herança provençal e surtos pós-modernosos de escárnios baianos da atualidade.
         Cascas de bananas penduradas no telhado do escritório do grande advogado e poeta Gregório de Matos Lucifé da Cocada Preta com Pimenta Malagueta.
         E também a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Doidos da Praça Guadalupe. Passando pela foz do rio Peixinhos outra vez: assando candungas no fogareiro e guisando siris com leite-de-coco pra comer com farinha “tropêra” e tanajuras
         Mil e um aedos e rapsodos sob a mesma subnutrição pré-medieval das cruzes gamadas merovíngias e borborêmicas?? Caldeirões etruscos borbulhando no centro dos Bálcãs?? Incontáveis milharais roxos vicejando nas proximidades do rio Ipanema em 1695?? Violas e pifes no semi-árido do Arararipe?? Ou as armas assinaladas de Dom Sebastião e Malunginho??
Beatniks e hipsters paraibanos da década de 70. Escritores independentes da década de 80. Neo-punks da década de 90. Missas de vaqueiros redimensionadas. Peixeiradas no bucho do sargento Expedito na quermesse de Santa Bárbara em 1978. Coquistas e violeiros contando as moedas conseguidas no ônibus mais lotado do centro das cidades grandes. O cachê dos poetas alternativos desaparecendo rapidamente nos meandros intestinais dos senhores deputados e grandes empresários da cultura nordestina e pós-moderna.


PARTE 6

É preciso falar também dos detalhes técnicos de formatos, tamanhos, limites, bordas, parágrafos, costuras, sintaxe, estilos, simetrias, ritmos, sílabas, “acordes”, etc, etc. Tudo o que pode ser quantificável, mensurável: a parte mais importante do conhecimento ocidental.
Por exemplo: um ensaio com 19 páginas e meia, em linguagem coloquial, não será considerado um ensaio, se seguirmos as regras rígidas da ABNT & Cia, já que um ensaio deveria ter, no mínimo, 20 páginas convencionalmente caracterizadas, e não pode ser escrito, em nenhuma hipótese, com linguagem coloquial, mesmo que não inclua termos chulos.
ENTÃO É CAMISA-DE-FORÇA MESMO, pra não dizer “eliminação da concorrência”.
Tudo isso na parte especificamente técnica. As noções básicas da Beleza e da Técnica.
Porque a parte “comportamental e epistemológica” é um semicaos tão medonho e labiríntico, que talvez fosse melhor jogá-la pra debaixo dos tapetes persas ou empurrá-la com a barriga elástica de certos abdomens budistas.
Sei não. Tou muito inseguro mesmo. Falando sério. Principalmente quando vejo jovens com botões de Stalin ou Bolsonaro no peito. E a educação para a cidadania e expansão da consciência vão para o segundo plano, ou podem até mesmo serem descartadas em determinados momentos. Não é brincadeira.


Mas eu estava me desviando do foco principal naquela passagem específica da agiotagem. Eu não conseguia entender como um cara tão rico como Justino precisava apelar para empréstimos de agiotagem clandestina. Talvez os gastos com as putas de luxo, principalmente as polacas e francesas, incluindo mulatas “globelezas”, estivessem ultrapassando determinados limites na contabilidade de Justino Fialho. E tem o peso da velhice também. Mil e um detalhes transbordantes.
Gastos extras cada vez mais frequentes, com doenças típicas da terceira idade, e exigências cada vez mais exorbitantes das putinhas de 20 anos.
De tudo isso, Elanor fez vista grossa: bastava-lhe ter um macho provedor para dar conta dos dois filhos. A garantia de que sua herança genética teria uma boa poupança para o futuro. O harém de Justino, há muito tempo, já não interessava à vida de Elanor.

                E havia o vício do pôquer também, nos cassinos mais badalados das três Américas. No auge da fama e da glória. Muita malandragem tupiniquim embaixo dos sovacos, e cartas evanescentes em outras mangas e paletós (muita “arte”). Parecia, às vezes, com um Hemingway, no auge, deslizando pelos principais “points” da Geração Perdida. (quase da estatura de um Garcia Lorca).
                Tenho poucos detalhes da vida de Justino nos cabarés de Natal da década de 40, um pouco antes da primeira fama com o romance “Juazeiros eternos” (não tive disposição para pesquisar sobre isso). E um ano depois veio novamente uma grande vendagem com a semi-escatológica novela “O claustro sombrio do coronel Barbosão”, onde relata em pormenores existenciais a decadência lenta e cotidiana do referido coronel nas terras do antigo Cariri cearense. Outro livro dele que vendeu muito foi “Transviados do Mucuripe”, onde narrou as aventuras e desventuras de um grupo de artistas transgressores e jovens “transviados” de Fortaleza, na segunda metade da década de 60 e primeira metade da década de 70: um grupo que deixou influências seminais em toda a psicodelia Nordestina posterior, e até em grupos de pop-rock da década de 80.
Os detalhes sexuais, as passagens que narram o uso de substâncias pesadas e a posterior associação com o tráfico de drogas foram abordadas por Justino com um estilo seco e denso, semelhante ao de Graciliano, com um enredo “moderninho” e um estilo quase coloquial, mas bem costurado, que agradaram ao público jovem das capitais nordestinas na década de 70, e depois estes livros espalharam-se pelas três Américas, inclusive com algumas traduções na Espanha e na França.
                Este terceiro romance de JU deixou a impressão de um oportunismo temático no início da década de 70, por conta de sua posição política “centrista” e de sua aproximação com o catolicismo “à direita”, enquanto fingia articulações com a esquerda católica e com a centro-esquerda escandinava. Na verdade, quando um artista consegue fama e dinheiro, ele torna-se “espiritualmente” burguês. Apega-se inevitavelmente.
                E é bom não esquecer que Ju narrou muitos aspectos negativos da trajetória do grupo “Transviados do Mucuripe”. Privilegiou, na sua narrativa rocambolesca, a irresponsabilidade sexual, os excessos no uso de substâncias, desvios mentais e comportamentais de diferentes tipos. E até a associação com o tráfico de maconha e alucinógenos, que vinham do sertão para abastecer as capitais do Nordeste. A decadência horripilante de alguns viciadfos em drogas pesadas foi narrada também por Justino.
                Sendo assim, até o próprio Ju levou alguma fama de transgressor artístico e “transformador social”, o que obviamente não era. O que ele fez foi um fingimento literário bem feito. Que pegou bem. E vendeu bem.


                Por incrível que pareça, Justino tinha um trânsito razoável com o pessoal LGBT, apesar do seu perfil de machãozinho “casanova” nordestino. Até porque um ou outro pequeno estranhamento mútuo é normal. Faz parte das multiplicidades da vida. Acho que a poesia “salvou” Justino Fialho. Afinal, a poesia é fêmea. É espuma salgada caótica. Que reconhece e apoia a diversidade cósmica inteira. Com os seus dois lados primordiais: união mística de opostos, após o Big Bang.
                No Big Crunch, toda multiplicidade retornará ao nada cósmico, ao útero primordial. E depois explodirá outra vez em incontáveis nuances diferentes do Uno Primordial.
O filão artístico da alma de Justino Potiguar ajudou-o a superar visões estreitas e totalitárias. A poesia também “salva”. E há caranguejos inteligentes e antenas digitais no sertão.
No céu cabe todas as estrelas. Com dinheiro ou sem dinheiro. Com fama ou sem fama.

E eu não estou a fim de ficar apenas abordando defeitos de Ju. Então seria bom que eu começasse a falar dos meus defeitos também.
Negócio seguinte: sou um bicho humano, e não um “pendráive”. Sou resultante do entrelaçamento de bipolaridades primordiais. Sou totalidade cósmica polimórfica depois do Big Bang. Nunca posei de santo, nem de guerrilheiro do corpo fechado. Nem de liderança anarquista “kamikaze”. Ou cirenaico pseudo-suicida, teorizando sobre “sistematização” do suicídio branco.
                Qualquer faísca de qualquer um dos lados da minha moeda mental pode brotar, emergir, de repente. Ou do lado A ou lado B. Ou do pólo positivo ou do pólo negativo. E essa alternância é fundamental para sobreviver “darwinianamente” na Terra. Mas as dosagens variam conforme a força interior e o discernimento intuitivo. A dosagem certa na hora certa por um motivo justo.
Porém às vezes certos impulsos conseguem atropelar o “eu consciente”, por mais atentos e vigilantes que estejamos: é humano, se é eventual e raro, uma rara falha humana perdoável na maioria dos casos. Mas também há momentos em que é preciso botar a autodefesa pra funcionar contra os monstrinhos “darwinianos”. E até fazer uns ataques preventivos de surpresa, quando é realmente necessário.
Reconheço que sinto inveja do sucesso de Ju. MAS NÃO É UMA INVEJA PATOLÓGICA.
E as análises negativas de alguns aspectos da obra e da vida de Ju, que eu fiz em alguns momentos da hora da raiva, a meu ver são perdoáveis, e são verdadeiras na abordagem sintática, estilística ou ideológica. E era preciso ter coragem pra falar a verdade. Era preciso questionar a unanimidade superficial que girava em torno dele. É preciso desmitificar os escritores, principalmente os canônicos. Uma intensa necessidade de se justificar.


             Lembro de muitos fatos da vida e trajetória de Justino. Tanto dos “causos” que eu testemunhei como dos que ouvi falar, ou que vazaram na mídia. Alguns bizarros. Outros tétricos. Outros que deixaram dúvidas. ETC.
             Por exemplo: Ju frequentava somente os restaurantes da classe média e burguesia. Diferentemente de muitos intelectuais de esquerda e escritores “alternativos”, que costumavam frequentar “pega-bebos” para comer sopas, no jantar, ou “prato-feito” no almoço, enquanto bebericavam alguma cachacinha tridestilada, devagar. E engatavam papos-cabeça com artistas transgressores, neo-hippies e matutos aloprados que gostavam de afoxés, emboladas e cordéis.
             Ju mantinha uma certa distância desses lugares e desses tipos “transviados”.
 No máximo observava-os de perto, como um antropólogo com uma luneta, um ou felino cercando uma presa. Na verdade, eram raros os diálogos com a “marginália”. A maior parte dos que se consideravam “canônicos”, de uma forma ou de outra, fossem armoriais ou acadêmicos, costumavam manter uma certa distância dos “amadores”, aventureiros, boêmios, preguiçosos, “charlatães”, quixotescos, pobretões, semi-loucos, etc, etc. Uma seleção “cognitiva”, mas também açucareira.
         Encontrei-me com ele, uma certa vez, no restaurante Buraco da Gia, em Goiana, Pernambuco (mata norte), durante um Festival de Cultura e Artes onde ele seria homenageado pelo governo do estado, principalmente pela sua impagável contribuição à sistematização teórica armorialista e aos detalhamentos filosóficos e antropológicos da identidade étnica nordestina e regionalista (a panóplia dos barões e sátrapas assinalados no semi-árido da Gôta Serena e da Besta Fera). O ano era 1986.
         Eram quase duas da tarde, e ele já estava bastante “quente”. Sua palestra aconteceria às 3 da tarde no auditório principal do evento, com toda a pompa, e um cachê de 5 mil reais. Nessa época eu trabalhava como datilógrafo na Fundação de Cultura do Município de João Pessoa (FCMJP). E aproveitei pra vender um livro-de-bolso, uma pequena miscelânea, de minha autoria, durante o final de semana no Festival.
         Bom, o fato é o seguinte: por um motivo qualquer, ele, JU, desentendeu-se gravemente com um professor do curso de Serviço Social, da Universidade Federal da Paraíba, que supostamente acusou o grande bardo Potiguar de “conluios sutis” com alguns conservadores e misoneístas do “centrismo à direita” em todo o Nordeste. E que até o próprio Dom Hélder teria muita desconfiança da verdadeira posição ideológica de Justino Fialho. E que o ecumenismo progressista de Ju era um mero disfarce para esconder misoneísmos culturais e reacionarismos políticos. Assim dizia o professor. (eu estava na mesa ao lado, e escutei tudo.)
         Ju, que já estava bebão, perdeu o juízo. Pegou o professor pela beca, deu-lhe dois tapas na cara, e jogou-o em cima do balcão do restaurante. O professor estatelou-se no balcão, desequilibrou-se e depois caiu embolando no meio das mesas. Foi justamente neste momento que um guarda municipal segurou JU pelas costas, e o imobilizou com um golpe de judô. Alguém lembrou que eram 3 da tarde, o horário da palestra de Ju. Então deram-lhe um banho frio; depois fizeram-no engolir dois ansiolíticos e um tubo de guaraná do amazonas em extrato líquido, e levaram-no para a palestra, onde fez muito sucesso com um palavreado bonito sobre herança regionalista e provençal. (as espadas e os escudos da aristocracia provençal e sertaneja.)
         Quanto ao referido professor, foi levado pela Guarda Municipal para a sua residência no centro de João Pessoa, antes de passar por uma farmácia e fazer curativos em alguns arranhões.


         De outra feita, num evento literário em Fortaleza, em meados da década de 90, eu fui incluído na programação como poeta declamador e como debatedor numa mesa sobre o tema Literatura Periférica e Contracultura. (onde vendi alguns livros de bolso, da minha autoria, durante os quatro dias do evento, entre os frequentadores da quermesse, no “mano a mano”, abordando e convencendo a comprar.)
Aproveitei dez dias de férias, e fui. Mas fui desarmado.
Não lembro exatamente o ano, mas foi naquela fase do bate-boca entre Fred Zero Quatro e Ariano Suassuna, por conta de resquícios da guerrinha entre armoriais e tropicalistas, desde o final da década de 60, e a nova guerra entre “psicodélicos” e “matutistas”, a partir da segunda metade da década de 90.
O evento começaria com a abertura na quarta-feira, onde os poderosos do estado do Ceará fariam seus discursos e “pantomimas” políticas.
Da quinta ao domingo aconteceria a programação propriamente dita, bastante variada, quase multicultural.
Fiquei alojado num quitinete com dois beliches, por conta da prefeitura de Fortaleza, onde quatro artistas “mambembes”, incluindo eu, ficamos espremidos até o final do evento, e fazíamos nossas refeições num self-service de um centro de convenções, reservado pela prefeitura para as refeições dos artistas convidados. Justino chegaria de avião, vindo de São Paulo, onde estava finalizando detalhes de negócios editoriais, onde sempre havia sonegação de impostos na cadeia produtiva do livro, e majoração do preço final.
E este foi um evento onde aconteceram vários entreveros entre debatedores, inclusive no debate do qual participei, e no de Justino também, que tinha como tema “Armorialismo, música clássica e xilogravura”. Aconteceram também várias brigas entre populares que frequentaram o evento. Inclusive houve várias falhas na produção e organização do evento, o que contribuiu para aumentar o nervosismo das egolombras artísticas e políticas. Enfim: aquele foi um evento onde se espalhou um clima de estranhamentos mútuos, e agressividades eventuais decorrentes de um alto uso de álcool e “otras cositas más”.
         No debate sobre “Panóplias e Brasões Armoriais”, por exemplo, e também em outros debates, houve vários bate-bocas, e acertos de contas posteriores nos barzinhos do entorno do evento. Lembro de dois temas cujas discussões foram bastante inflamadas: “Literatura Marginal no Nordeste” e “Literatura Mística Psicodélica.”
         Depois a guerrinha continuava nos puteiros e pega-bêbos do centro da cidade, até as quatro da manhã. E devemos sempre agradecer à Divina Providência o fato milagroso dessas “guerrinhas” nunca chegarem ao nível físico, e ficarem apenas no campo verbal, por mais pesada que seja a oratória dos sofistas tectônicos e fingidores invocados. No meio de todos os detalhes das relações de poder atravessando a garganta do Mundo
         EU, HEIN??
         Depois veio um superdoutor histérico qualquer me atanazar o juízo, que eu não lembro quem era, nem de onde era, e começa a me ameaçar por um motivo fútil qualquer, e eu já estava com seis doses de conhaque e um “beque” fuderoso nos pulmões, mas consegui botar o autocontrole pra funcionar, e fui saindo de fininho, fingindo que não era comigo. (isso aconteceu nos fundos do auditório, onde tava rolando um “fuzuê” epistemológico paralelo ao debate oficial.)
         Eu já estava meio zonzo. Saí do auditório e fui pra uma lanchonete do outro lado da pista.

         De outra vez, em Terezina, no Piauí, numa feira de livros estadual e festival de artes, eu estava novamente como poeta declamador, com um cachê miserável, e vendendo livretos da minha autoria, no mano-a-mano, como sempre fiz, naqueles tempos “ancestrais”. Ele já era uma estrela literária. Um popstar da literatura. E o seu terceiro terceiro livro estava vendendo mais do que o primeiro.
         Como sempre, ele fazia a palestra de encerramento dos festivais, com muita pompa, enquanto seu agente literário cuidava da contabilidade e dos detalhes administrativos com os livreiros, editores e lojistas. Mas eu realmente não estava muito preocupado com as pompas de Justino. Vendi uns oitenta livros durante o festival, e a prefeitura de Terezina garantiu o mísero cachê dos poetas, as passagens de ônibus, a estadia, a comida e o remédio pra gripe e dor-de-cabeça. O conhaque e as outras “coisitas” ficaram por minha conta, é claro.
         Entretanto, a vida tem os seus azares, alternando com uns poucos momentos de sorte. Ela é assim mesmo. É o seu soft “cristalizado”.
         Estava eu, já no finalzinho do festival, depois da palestra bombada de Ju, fumando um baseado atrás de umas árvores do parque onde aconteceu o evento, antes da chegada do ônibus Terezina-Recife, quando um guarda municipal apareceu de repente na minha frente. E, num gesto repentino, arrancou-me o baseado da boca. Se não me falha a memória, o ano era 1987. Outubro.
         Os guardas municipais de Terezina trabalhavam apenas com um pequeno cassetete, sem armas de fogo, mas costumavam ser extremamente violentos, com uma certa frequência. Mas imaginem o tamanho da minha surpresa quando ele começou a fumar a baga e disse assim: “Negócio seguinte, seu doido, me dê cem reais, e vá para o seu ônibus calado, e não olhe pra trás”.
         Dei os cem reais, e comecei a caminhar na direção do ônibus, enquanto ele terminava de fumar a grande baga daquela “manga-rosa”. Com certeza ficou muito DOIDO. Era um domingo à tarde em Terezina.
         Por sinal, uma bela tarde de domingo: com nuvens marrons misturadas com raios roxos de sol, sem sinal de chuva, e outros mistérios cósmicos atravessando o cenário, e o vento balançando as folhas dos coqueiros do parque. Então esqueci o guarda e me aproximei do ônibus, pra constatar que, ao redor, estava acontecendo uma “briga”, uma grande confusão, um monte de gente ao redor do ônibus, esculhambando e ameaçando uns aos outros, na hora que um camburão da PM chegou.
         Justino estava bêbado, mais uma vez, e muito nervoso e agressivo. Isto aconteceu logo depois da palestra dele, onde houve um “barraco” entre ele e um poeta paraibano vinculado ao Movimento da Esquerda Poética Libertária (MEPOL), de João Pessoa.
         Meio de longe, eu avistei quando o referido poeta deu dois tapas na cara de Ju, e empurrou ele para o lado do ônibus, que caiu desequilibrado em cima do motorista. Foi justamente nesse momento que um policial segurou o poeta paraibano pela gola da camisa, e arrastou o dito cujo pra dentro do camburão. E Ju foi levado pelo pessoal da Secretaria Estadual de Cultura, que o “arrastou” pra longe dali.
         O problema agora era tirar o dito poetinha paraibano de dentro do camburão. Aí a merda fedeu mesmo. Pegou fogo na caixa d’água.
         Vi apenas alguns cassetetes zunindo no ar, em meio a gritos de dor, e corri pra debaixo de uma marquise no final da rua, onde esperei o buruçu diminuir, e a poeira começar a baixar.
         Quando a turba “contracultural” enfurecida conseguiu tirar o dito poetinha paraibano de dentro do camburão, ele começou a vomitar. Uma bílis gosmenta e verdosa. Fedorenta. E aí todo mundo parou ao redor dele, inclusive os milicos, enquanto o pobre poeta se contorcia em vômitos estrambólicos. Nessa hora a “briga” terminou. O buruçu esfriou. E o poetinha caiu no chão em estado de coma. APAGOU.
         Rapidamente chegou a ambulância do plantão de urgências do Sanatório Municipal e levou o dito poetinha desacordado. E tudo voltou ao “normal”. Os milicos foram embora, mas o ônibus Terezina-Recife atrasou duas horas.
         No outro dia, os jornais de todo o Nordeste noticiaram que, após medicação apropriada, o jovem e desvairado poeta já estava na casa dos pais, em repouso, e recuperado.
         Pelo que eu apurei, o motivo do “barraco”, na palestra de encerramento do festival, foi um detalhe da antiga controvérsia sanguinária entre “psicodélicos” paraibanos e “caipiristas” potiguares. Um sério estranhamento mútuo que, desde meados da década de 60, vinha acumulando vários momentos de bate-bocas inflamados e brigas-de-bar entre muitos intelectuais e artistas da terra Brasilis, mormente entre as cidades de Natal, João Pessoa e Recife, incluindo a região do Mucuripe, no Ceará, e a área metropolitana de Maceió, passando pelo Bodocongó e a Serra da Borborema.
         O detalhe era o seguinte: é aquela mesma história da polêmica em torno da música “Xote dos cabeludos”, do Luís Lua.
         Num certo sentido, é semelhante ao “bate-boca” entre Ariano e Fred 04, na década de 90.
         Alternativos contra neoclássicos.
         Pós-modernos flexíveis contra caipiristas estreitos.
         Neo-engajados contra conformistas e cooptados.
Esse velho entrevero ainda vai dar muito pano pra mangas. E agora temos o crescimento do cristianismo fundamentalista e pentecostal, pra botar ainda mais lenha nessa fogueira. Quer dizer: agora é fogo duplo contra os “psicodélicos” e “transgressores” em geral.

         Novamente “hipsters” e “beatniks” contra bispos, pastores, misoneístas e “centristas à direita”. E eu estou velho e cansado. Sinceramente: CANSEI.

FIM

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CHOQUE ELÉTRICO

(conto longo ou novela curta)
(narrativa autoficcional e experimental)


Zé do Sonho

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AVISO IMPORTANTE
Esta é uma obra de ficção, e qualquer semelhança com a realidade deverá ser entendida como mera coincidência.
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Finalizei esta narrativa autoficcional no final do mês de janeiro de 2018. E escrevi uma parte deste livro no Centro de Assistência Social da Cidade do Recife (CAS), onde fiquei “internado” durante dois meses. Na verdade, não era bem um “internamento”: era um tipo de “acompanhamento” psicológico, algo semelhante a uma liberdade condicional, concedida junto com uma licença médica de dois meses.
Portanto: “morei” neste Centro durante 60 dias.
E agora vou falar abertamente e honestamente sobre a minha “loucura”.
Fui “internado” no dia 23 de outubro de 2017 (tenebrosos tempos de reascensão do neo-liberalismo fascistóide). Ninguém usou a terapia do eletrochoque nas minhas têmporas, mas eu cheguei a pensar que usariam, “por debaixo dos panos”. Tive sorte, pois apenas alguns membros da minha família me apoiaram, (poucos), e a maioria deles é gente “quase-pobre” da classe média baixa. Não tem dinheiro.
O conflito de gerações, mais uma vez, falou mais alto na maior parte da minha família conservadora e “normótica”.

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Eu já somava 33 anos de serviço público quando fui “internado”. O diagnóstico foi “esquizofrenia grave”, com surtos de agressividade, mas esse diagnóstico foi contestado por um advogado (do Sindicato) e um psicólogo (de uma Clínica Popular), que diagnosticou como “esquizoidia mediana”, sem maior gravidade.
O pivô do internamento foram ameaças de morte recíprocas que aconteceram entre eu e um aluno da UFPE. Nessa época, eu trabalhava como secretário do curso de Logística da referida universidade, onde sempre me dediquei à militância sindical de esquerda, mas não como prioridade de vida.
O motivo dos bate-bocas pesados e das ameaças mútuas foi mais ideológico do que pessoal. E eu realmente surtei e me descontrolei, depois de um acúmulo de “entreveros” recíprocos medonhos. Então um inquérito foi aberto e, como resultado desse inquérito, a Junta Médica do Hospital-Escola decidiu pelo meu “internamento”, mas “liberou” o aluno (certamente por ser filho de gente muito rica da burguesia açucareira pernambucana).

E o seguinte fato acabou agravando ainda mais a situação: eu sou filho de um comissário aposentado, e numa certa madrugada, em que estava passando o fim de semana com meus pais, peguei um dos revólveres pequenos do comissário, enquanto o casal dormia, e levei o trabuco para o meu quitinete, de onde, às vezes, raramente, levava o 38 pequeno e uma peixeira de nove polegadas na minha ponchete grande. Eu estava seriamente desconfiado que algum neo-fascista ou neo-stalinista poderia me agredir gravemente, ou até me matar, pois o clima no Departamento e em toda a Universidade andava pesadíssimo, e alguns espancamentos e depredações já haviam acontecido em diferentes setores. Mas o problema maior foi que um dia o meu chefe descobriu que eu andava armado, e exigiu que eu devolvesse o 38 ao meu pai, e eu então devolvi. Mas fiquei cheio de dúvidas, e muito inseguro.
Confesso com toda sinceridade: eu não queria um porte de arma, mas desde os primeiros bate-bocas e o começo do “buruçu”, eu fiquei com muito medo, e realmente acreditei que algum burguesinho neo-fascista, ou “trotskista” delirante, ou “black-block” sanguinário, fossem mesmo capazes de me espancar gravemente, ou até me matarem. Um deles, inclusive, havia dito que, cedo ou tarde, me pegaria no jardim da entrada do Departamento de Artes. Então fiquei muito agoniado: por isso que peguei, às escondidas, o 38 do meu pai.

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Sei que muita gente vai estranhar que, no início do século 21, a guerrinha epistemológica entre “normose” e “transgressão” ainda esteja tão quente. Mas esta é uma guerra “filosófica” que talvez seja eterna. Um maniqueísmo mútuo que sempre retorna, como uma fênix feroz. Uma dicotomia ancestral e sempre atual. Com poucas possibilidades de sínteses ou interconexões em algum tipo de “meio-termo”.
Eu li muita psicologia, tanto que até me considero quase-psicólogo. Fiz essas leituras e pesquisas para os meus esforços de autocura, e pra me ajudar na abordagem de personagens na minha literatura, pois sou também escritor independente, além de funcionário público. Mas nunca ganhei dinheiro com literatura. Sempre sobrevivi do meu salário, do meu dia-a-dia em arquivos e secretarias do serviço público. E escrevia poesia e prosa em algumas brechas do meu tempo livre, no meu computador residencial ou em cadernos usados especificamente para a escrevinhadura literária.

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A UFPE é uma universidade muito conservadora e reacionária. Um domínio de “senhores-de-engenho”, novos coronéis e uma classe média obcecada por cargos comissionados, e vampirizadora dos cofres públicos. O de sempre: dinheiro e poder. EGO DOUTORAL. Mas eu realmente não esperava que uma surpresa horrível dessas acontecesse na minha vida aos 56 anos.
Porém a mente humana é realmente imprevisível, e as relações de poder são mais venenosas do que pensa a nossa vã literatura canônica. E uma grande merda aconteceu, e eu fiquei inevitavelmente estigmatizado como “esquizofrênico” perigoso, depois de ficar dois meses num “sanatório” público (um podador de almas, uma “saia justa”, uma camisa-de-força existencial). Mas não vou priorizar, aqui, uma narrativa de maus tratos, descasos, humilhações, abusos, comida estragada, tortura psicológica, etc; (até porque fui razoavelmente bem tratado). Outros narradores já abordaram esses aspectos em outros livros, e também em filmes. Quero priorizar, nesta narrativa, detalhamentos das relações de poder e de interesses egóticos ou imediatistas, em geral. E motivações ideológicas por trás de falsas abordagens científicas.

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Herdei da genética de minha avó materna umas quatro ou cinco doenças congênitas, devido ao costume do casamento entre primos até a geração dos avós: labirintite, psoríase, rinite, sonolência excessiva, e provavelmente “esquizoidia mediana” ou “esquizofrenia leve” (atavismos genéticos, cujas manifestações aleatórias são “imprevisíveis”, e que podem manifestar-se em determinadas fases, dependendo da interação com um meio social específico).
Mas a Junta Médica cometeu um erro de diagnóstico ao definir o meu transtorno como “esquizofrenia grave”, e precipitou-se ao pedir o “internamento”, confundindo uma semi-loucura mediana com um caso de alta periculosidade. Porém, naquele momento, eu ainda não tinha certeza se foi mesmo um erro de diagnóstico ou uma perseguição ideológica, apesar das discussões sobre a Reforma Psiquiátrica já estarem bem avançadas. Porém, naquela província “acadêmica”, ainda vigorava o apego teórico a uma certa “normose” existencial e ideológica.

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Eu me livrei dos eletrochoques, mas já estava estigmatizado como um transtornado, um perturbado mental, que precisa tomar remédio controlado. A partir daí, o “estigma” de inadaptado perigoso permaneceria, OFICIALMENTE. E o de incapacidade laboral também. Seria uma maneira de eliminação de concorrências epistemológicas ou políticas. Ou seja: me fuderam, de uma forma ou de outra, e destruíram minha reputação como técnico-administrativo responsável, cumpridor dos seus deveres, após 33 anos de serviço público. Aproveitaram a ocasião de um vacilo pessoal para eliminar uma concorrência “cultural” antipositivista e anticapitalista, pois sempre me viram como um “quinta-coluna” dentro do mundo acadêmico misoneísta e reacionário da UFPE.
Após o tratamento, a acusação de insuficiência de desempenho e incapacidade laboral foi reforçada, e insinuaram uma sugestão capciosa para um pedido de demissão “voluntária”. Mas eu não pedi demissão. Pelo contrário: pedi reavaliação da decisão da Junta Médica e da versão defendida pela Comissão de Sindicância, pois o meu objetivo era completar 35 anos de contribuição, e pedir uma aposentadoria proporcional ao tempo total de serviço.
Essa acusação de “insuficiência” administrativa foi uma estratégia da Reitoria para evitar a aposentadoria por invalidez, já que esta pressupõe o pagamento do salário integral, por lei, nos casos de “alienação” mental.
E uma outra reavaliação foi marcada para 45 dias depois.

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Sou escritor autodidata por vocação e convicção, mas sempre sobrevivi como auxiliar administrativo, ou como sebista, antes de entrar no serviço público federal, pois nunca ganhei dinheiro com a minha literatura “independente”, como já disse. Além de que optei por não constituir família, pra que me sobrasse mais tempo pra ler, investigar, refletir, rascunhar, revisar e gerenciar as minhas publicações por conta própria.
O principal argumento usado pelo Gabinete Jurídico da UFPE foi o de que eu levava uma “vida dupla”, fazendo desta universidade apenas um “bico”, enquanto passava a maior parte do tempo de trabalho escrevendo a minha literatura iconoclasta e maldita. O que não era verdade, pois sempre cumpri meus horários e os prazos das tarefas administrativas específicas, o que foi reconhecido pela Chefia do Departamento de Logística, num despacho para o processo da Comissão de Sindicância.
Outra falácia que usaram contra mim foi a calúnia de que eu estava viciado em maconha, o que supostamente agravava, segundo o Gabinete e a Junta Médica, a frequência dos delírios e alucinações persecutórias. Mas a verdade é que eu usava apenas EVENTUALMENTE maconha e álcool. Mesmo assim, fora do horário de trabalho.
Nunca fui exatamente um “viciado”, no sentido de usar diariamente qualquer tipo de droga.
Cocaína, por exemplo, que é a droga preferida dos burgueses e grandes executivos, é uma substância psicoativa da qual eu não gosto. É uma droga de ego. E as minhas “viagens” preferidas sempre foram a intuição mística e a criatividade artística, e não a egolombra dos burgueses, generais e grandes executivos.
Quanto às tarefas administrativas, eu sempre dei conta de todas aquelas que foram entregues à minha responsabilidade pessoal, como já disse. O meu autocontrole e a minha força interior sempre foram capazes de neutralizar os momentos de “delírios” leves que aconteciam imprevisivelmente, às vezes, no horário de trabalho, como decorrência da “esquizoidia”, mesmo sem o uso de psicoativos. Portanto nunca houve insuficiência de desempenho. E a tese mais provável é mesmo a de que houve perseguição ideológica disfarçada de “erro” no diagnóstico do nível de gravidade para o meu caso pessoal.

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Porém ainda não me mataram. Nem me aleijaram.
A vida continua, plena, apesar da velhice aproximando-se rapidamente. E não venham me dizer que eu estou cuspindo no prato onde comi. O papo aqui é outro. O buraco é mais em cima. Nas altas cúpulas da epistemologia estreita e tacanha.
E a inadaptação é dentro. Ferve por dentro, mas não impede a execução das tarefas diárias, nem impede que eu continue ampliando a minha percepção, a visão crítica e a minha capacidade laborativa.
A maioria dos meus colegas de trabalho, nos diferentes setores em que trabalhei como digitador ou secretário, eram normais e bem adaptados. Ou até mesmo conformistas cooptados. Mas muito sutilmente venenosos. Destilavam um veneno sutil muito eficiente, muito capcioso, quase imperceptível no dia-a-dia, que frequentemente era usado nos ataques sorrateiros contra inimigos ideológicos ou concorrentes diretos aos cargos de direção, comissionados ou funções gratificadas. No meu caso, fui particularmente perseguido, e até ameaçado, por uma “secretária de departamento” evangélica, filha de um grande burguês litorâneo, a qual costumava “difamar-me” junto à alta cúpula da UFPE e aos psiquiatras do Hospital-Escola, quando não tentava me humilhar ou me ameaçar indiretamente.
Ela conseguiu me infernizar; me tirar do sério. E ainda havia alguns estudantes extremistas, de extrema-direita ou extrema-esquerda, que também me atormentavam, já que, nessa época, eu assumia uma posição política de esquerda democrática “centrista”, e defendia um esquema político-econômico semelhante a um “estado-de-bem-estar”, e não uma “ditadura do proletariado” (um fascismo vermelho qualquer). Portanto fiquei num fogo cruzado horrível entre os dois referidos extremos.
Também havia a luta-de-classes entre professores e técnicos: uma disputa ideológica bastante infernal. Enfim: aquela universidade era um ambiente doentio e bastante perigoso. E o mais estressante eram as relações de poder, e não o volume de serviços administrativos, na maioria dos setores.

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O Departamento de Artes, por exemplo, era um setor que tinha a fama de ter poucos serviços, com a exceção, talvez, dos cursos de Arquitetura e Letras. E estes cursos tinham a orientação didática de não priorizar a criatividade artística, mas a formação de teóricos da arte ou planejadores urbanos. A “escrita criativa”, por exemplo, nunca foi introduzida no currículo do curso de Letras, pois este sempre esteve orientado, principalmente, para a formação de críticos e teóricos que, na verdade, desprezavam a criatividade literária e a expansão da consciência, priorizando os interesses imediatos de um cânone ocidental misoneísta e despolitizado.
E o chefe deste Departamento era um jornalista despolitizado, com uma postura conformista e submissa aos poderes estabelecidos de cada contexto. No campo artístico e cultural, era também bastante limitado nos questionamentos ao Stablishment. Era, na verdade, no frigir dos ovos, uma criatura submetida ao Mainstream.

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Minha opção pelo autodidatismo foi realmente quixotesca. Eu tinha 23 anos, e era muito ingênuo e sonhador. Um matuto ingênuo. E esta opção foi uma decisão que tomei durante meu primeiro “surto”.
Abandonei então o curso de Bioquímica, para o qual não tinha vocação, e enveredei pela militância “revolucionária” e a literatura “alternativa” (sobrevivendo como “free-lancer” e vendedor de livros).
Depois de uns três ou quatro anos, comecei a estudar pra concurso, pois não estava aguentando a pindaíba extrema e a subnutrição incipiente. Meu plano era trabalhar durante o dia e escrever à noite. Pesquisar também, por conta própria, como autodidata, os assuntos e temas que eu julgava mais importantes e urgentes, evitando os currículos engessados e estreitos dos cursos da área de Humanidades, e priorizando as necessidades específicas da minha visão pessoal. MINHAS urgências.
O que foi quixotesco, e infantil, obviamente. Uma decisão tomada sob os domínios espirituais e existenciais de Peter Pan e Don Quixote. Mas eu não quero ficar, agora, chorando o leite derramado. Vou continuar pesquisando e investigando, por conta própria, os “pontos-de-estrangulamento” que a mentalidade acadêmica e canônica procura evitar, e vou também continuar escrevendo novos textos. Tanto poéticos quanto prosaicos, pois esta é a minha vocação. Fui escolhido e escolhi.

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A classe média universitária é um trambolho egótico e imediatista que só pensa em usufruir dos cofres públicos, e ascender hierarquicamente dentro das instituições.
Dinheiro e poder: a velha goga fudida. O resto empurra-se com a barriga, ou joga-se pra debaixo dos tapetes.
Que venha primeiro a bufunfa do meu projeto, meu convênio, meu cargo comissionado, meu ego doutoral. Meus cuscuz elitista. Meu pirão intelectualóide.
Já o pessoal administrativo, em geral, é a “peãozada” das universidades. Embora alguns cheguem a ocupar altos cargos em diferentes setores das “cúpulas”. Mas, em sua maioria, não passam de “barnabés” sem importância, e apenas executam as decisões dos egos doutorais e pós-doutorais. São uma mão-de-obra sem poder decisório. E agora, com a ascensão do neo-liberalismo fascistóide, começa a haver também uma pressão por metas, até mesmo entre os professores, o que piora bastante a situação geral.
No caso específico da UFPE, o carma coletivo de usineiro e coronel parece permear as relações de trabalho e poder.
Vou citar dois fatos que comprovam o que eu disse anteriormente:
1)      A composição interna do Conselho Universitário, onde os professores detêm 70 por cento dos assentos.
2)      Apenas o pessoal administrativo bate ponto.
(Os professores que possuem alguma função administrativa, gratificada, são dispensados do controle de frequência.)
Então o que acontece é que muitos chefes de Departamento passam todas as tarefas administrativas para os seus secretários, e ficam cuidando apenas dos seus projetos, seus convênios, seus interesses particulares. Enquanto as secretarias administrativas ficam sobrecarregadas, com barnabés cada vez mais stressados, o que agrava a guerrinha de classes entre professores e técnicos.

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Reconheço que existem colegas de trabalho que são enrolões. Aproveitam a estabilidade garantida pela Lei 8.112 (o Regime Jurídico dos Servidores Federais) para fazerem corpo mole. Relaxarem nas suas tarefas específicas, e atrasarem os prazos dos serviços. Mas não são maioria. E o pior mesmo é quando algum técnico passa a perseguir outro técnico, ou querer “vampirizar” algum colega.
Porém há setores onde não há necessidade de nenhum tipo de “neo-fordismo”, ou “linha-de-produção”, ou pressão por metas, uma vez que o volume de serviços é apenas mediano. E é bom não esquecer que estamos falando de uma empresa cujo produto é o conhecimento. É uma empresa “diferenciada”.
Eu mesmo não sou vocacionado para “workaholic”, ou pé-de-boi, como dizem aqui no Nordeste. Apenas faço a minha parte. Cumpro as minhas tarefas, dentro dos prazos. E nunca tive problemas com o controle de frequência.
Acredito também que a acusação de insuficiência de desempenho deveria ser usada apenas nos casos mais graves. Para os casos menos graves, seria mais justo outros tipos de punição mais branda. E reconheço que aqueles que trabalham mais, que produzem mais, merecem ganhar um pouco acima da média, e assumir cargos de mando. Por merecimento.

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Embora seja leve o meu “transtorno”, a minha “esquizofrenia”, eu admito que o problema existe. E, mesmo sendo leve, tem suas consequências. Mas seria necessário e justo que o diagnóstico fosse feito “imparcialmente”, sem filtração ideológica de nenhum tipo. Sem precipitações políticas “por trás”. Sem objetivos sorrateiros de eliminação da concorrência epistemológica e existencial.
A Junta Médica, portanto, errou na dosagem.
Acertou quando pressentiu uma possível “esquizoidia”. Porém errou no nível de gravidade. Pois o meu caso é mesmo de pouca periculosidade. E a minha trajetória de vida torna isso evidente. Portanto houve uma precipitação no primeiro diagnóstico.
Mas eu admito de que já estava na hora da minha família enfrentar abertamente, e corajosamente, a existência de algumas doenças congênitas herdadas da genética da minha avó materna, devido àquela tendência dos ancestrais promoverem casamentos entre primos, o que certamente “desorganizou” os cromossomos dessa parte específica da minha família. E sobrou pra mim.

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Quanto ao “faixa-preta” que me receitaram, chamado Olcadil, e que exigiram que eu não parasse de tomá-lo, reconheço que ele ajuda a dissolver a angústia, que é muita. É um bom auxiliar. Mas vicia rápido, e causa dependência, além de agravar a minha sonolência excessiva, o meu distúrbio do sono “ao contrário”, como eu gosto de chamá-lo, que é também congênito.
O referido ansiolítico provoca, portanto, uma duplicação da minha natural sonolência excessiva. Isso implica, por exemplo, que é praticamente impossível alguém conseguir trabalhar “tombando de sono”. Mas esse é outro aspecto da minha problemática geral que a Junta Médica não quer enfrentar diretamente. E fica fazendo “vista grossa”.

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Em mim, nunca houve uma grande fragmentação da personalidade. Nunca houve caos mental, propriamente dito. Houve pequenos surtos. Porém os surtos mais fortes foram raros: uns cinco ou seis, durante toda a minha trajetória de vida (57 anos). E eu nunca saí do “estado-de-vigíla”, nem perdi a consciência dos meus atos. E sempre dei conta dos meus afazeres em geral: trabalho, escrevinhadura, cozinha, faxina, leituras, cálculos, etc.
Mas reconheço que os diferentes “alteregos” que eu usei na minha literatura iconoclasta, e desvairada, são resultantes de um estado mental “semi-caótico”, mas não totalmente fragmentado. E também não é permanente: emerge apenas em determinados momentos, como parte do clima psicológico da criatividade artística.
Quanto aos impulsos, não se justifica o temor das pessoas “normais” de que eu posso, repentinamente, sair por aí atirando pra todo lado, em todo mundo, como aqueles “psicóticos” dos Estados Unidos. Pois eu estou, realmente, na DEFENSIVA. Minha perspectiva é apenas de legítima defesa, quando for estritamente necessário. O meu caso é diferente do caso desses “psicóticos” ianques.
A minha “função-de-ego” e o meu autocontrole continuam funcionando. A minha força interior permanece. O discernimento intuitivo e racional também.
E os pequenos “surtos” e “descontroles”, que às vezes acontecem, são humanos e comuns: acontecem com as pessoas “normais” também. Não são prerrogativas exclusivas da minha “esquizofrenia” literária.

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No meu caso pessoal, específico, uma exigência de abstinência total seria desnecessária. Melhor dizendo: seria excessiva, aberrante, equivocada.
Pois, no caso da maconha e do álcool, que são os MEUS “psicoativos”, eu consigo manter o uso eventual. Moderadamente, na maioria das vezes.
Então não sou exatamente um viciado, uma vez que o vício, propriamente dito, pressupõe o uso diário; e o autocontrole deixa de funcionar.
Também nunca me associei ao tráfico de nenhuma substância. Não sou bandido. Sou poeta.
Portanto: no meu caso pessoal, a referida exigência seria desproporcional. Decorrente de uma excessiva necessidade de controlar e “enquadrar”. E dificultar, ou impedir, as possibilidades de ampliação perceptiva e criatividade artística. Obsessões da “normose” castradora.
É indiscutível o fato de que a maconha e o álcool ajudam a aprofundar a intuição mística e catalisar a criatividade artística, desde que haja o cuidado de se manter dentro de certos limites, evitando determinados riscos decorrentes do uso excessivo e muito frequente. Enfim: fazendo o autogerenciamento da dosagem e da frequência.

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A Comissão de Sindicância cometeu dois erros: 1) Anexou ao processo algumas postagens onde alguns estudantes (administradores do grupo do curso de Logística no Face) fizeram cortes. Portanto trabalhou com um material incompleto, “suspeito”. 2) Assumiu uma posição, a meu ver equivocada, em que insinuava que apenas eu fiz ameaças. Quando, na verdade, eu também fui ameaçado. E ainda esqueceu o acúmulo anterior de “agressividades” no balcão da secretaria do referido curso.
Os estudantes envolvidos, obviamente, uniram-se contra mim, e tiveram um certo “apoio” da Chefia do Departamento. Até hoje não sei por qual motivo: se foi mais ideológico ou pessoal. E também nenhum deles compareceu à “oitiva” convocada pela Comissão: o que, pra mim, é outro fato que aumenta a desconfiança em torno deles. Torna-os mais suspeitos ainda. Além do mais, houve depredação e roubo de material eletrônico durante a reta final da última greve, em diferentes ocupações em alguns setores.
A posição política de cada um, infelizmente, eu não sei, pois nenhum deles tem coragem de assumir, em público, sua posição ideológica. Mas eu sempre assumi a minha. Tenho jogado aberto, ideologicamente e culturalmente.
Quanto aos referidos estudantes, tanto é possível que sejam de extrema-direita como é possível que sejam de extrema-esquerda: neo-liberais extremistas, neo-fascistas, neo-stalinistas, black-bloks “sanguinários”, etc: (não sei exatamente, mas gostaria de saber.)

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A posição política da Reitoria, nessa época, era um centrismo à direita, vinculado a setores “centristas” do campo majoritário petista, principalmente à corrente interna Construindo um Novo Brasil (CNB), que estava paulatinamente aproximando-se de uma posição visivelmente “quase-neo-liberal”.
Pessoalmente, o reitor caracterizava-se por uma postura “neo-fordista”, que encampava uma guerra classista contra o pessoal administrativo, onde os casos de perseguição ideológica e assédio moral estavam tornando-se cada vez mais frequentes, através das diferentes diretorias de centros, e agravaram-se com a entrada em cena do neo-liberalismo “fascistóide” emergente em todo o país.
Também havia muitos casos de funcionários relapsos, enrolões, irresponsáveis (“ancorados” na estabilidade prevista pela Lei 8.112). É verdade, reconheço. Mas com certeza não eram maioria dentro do campus, e generalizar conclusões seria um erro de estratégia “ideológica”. Eu, por exemplo, não poderia ser enquadrado nestes casos. Seria uma injustiça.

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A rinite alérgica, também congênita, era outro detalhe fundamental que a Junta recusava-se a enfrentar. A olhar de frente. Admitir. Reconhecer.
Sua argumentação era repetitiva e superficial: resumia-se a dizer que o ar-condicionado não influi diretamente na rinite, e que a influência maior seria da cerveja gelada e da maconha, mesmo depois de um exame toxicológico constatar quantidades mínimas de álcool e maconha no meu sangue. E havia também a poluição da cidade grande. Da capital do açúcar refinado. E as “somatizações” do stress das relações de trabalho e poder num ambiente indisfarçavelmente doentio.
A minha sinusite é um subproduto da rinite e da fragilidade do meu sistema imunológico, devida à um caso de esquistossomose que tive no início da juventude. Mas o fato é que as dores de cabeça, as gripes, as bronquites e as tonturas estavam ficando a cada dia mais fortes. Progressivamente.
Enfim: o quadro geral apontava para uma invalidez por motivos “orgânicos”, e não apenas psicológicos. Mas a Junta Médica fazia “vista grossa” para a parte orgânicapois certamente o seu objetivo capcioso era o de que eu acabaria pedindo uma demissão “voluntária”, o que evitaria o pagamento do salário integral no caso de uma aposentadoria por invalidez. É o mais provável. Com certeza.
E olhe que até aqui eu não tinha falado na úlcera gástrica, que com certeza tinha alguma somatização decorrente do stress de segunda a sexta, naquele departamento tétrico. Naquele ninho de víboras. Então não insinuem que essa úlcera decorre principalmente dos excessos de álcool e comida “carregada”. Não culpem exclusivamente a “babilônia” dos temperos nordestinos, nem a cachaça tridestilada da Mata Sul.
Primeiro admitam as energias pesadas das vossas relações de poder, e mecanismos de dominação e vampirismo.

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A reavaliação foi uma farsa.
A partir daí, tive a certeza de que a Junta Médica estava fazendo o jogo da barbárie neo-liberal emergente, apoiando a semiprivatização de hospitais públicos em todo o país. Ou seja: a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), que estava substituindo o Hospital-Escola, era mesmo, na prática, uma PPP (parceria público-privada), cujo objetivo era acabar com os serviços médicos gratuitos dentro do Hospital-Escola, e passar a cobrar por todos os serviços e medicamentos: seria a transformação, na prática, em uma espécie de “Clínica Popular de Economia Mista”, ou algo bem parecido.
Por tabela, todos os inimigos ideológicos de tal empreitada, dentro da UFPE, sofreriam algum tipo de perseguição política, incluindo aqueles que faziam alguma resistência cultural ou especificamente artística, como era o meu caso, já que, além de servidor público, eu era também “poeta maldito”. Aí então percebi que o meu “descontrole emocional”, após reagir às agressões verbais de alguns estudantes, foi um grande vacilo, e teria uma consequência mais grave do que eu avaliava a princípio.
A posição da Junta Médica na reavaliação foi de que eu estava mesmo incapacitado para continuar trabalhando. Quer dizer: reavaliou que eu não tinha mais condições de lidar com o público, mesmo que estivesse tomando o “faixa-preta” que eles me receitaram. E pra complicar ainda mais, percebi que todo o campus estava com medo de mim, depois da longa tramitação do processo de sindicância; embora eu estivesse na defensiva desde a abertura do processo: minha perspectiva sempre foi de autodefesa, e nunca de ataque “preventivo”.
Ficou então claro que a Junta estava, contraditoriamente, sub-repticiamente, esperando que eu pedisse uma demissão, “voluntariamente”. E que a aposentadoria por invalidez nunca seria indicada por essa Junta, mesmo com ela sabendo que, além do “transtorno”, eu era também portador de outras doenças congênitas. E que a rinite alérgica, por conta do ar-condicionado, e a sonolência excessiva, agravada pelo uso obrigatório do “faixa-preta”, poderiam, também, justificar uma aposentadoria por invalidez. Mas este tipo de aposentadoria, por lei, pressupõe o pagamento do salário integral, o que estava fora de cogitação, devido à orientação “neo-liberal” encampada pela Reitoria, seguindo a orientação do Governo Federal de enxugar e cortar gastos públicos até onde fosse possível.
E então, no meio desse labafero geral, eu estava mesmo fudido. Arrombado.

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Daí pra frente, fiquei então imaginando um futuro absolutamente sombrio, pra mim e pra meus pais, já que sou filho único.
Sem qualquer possibilidade de arranjar um novo emprego, e estigmatizado como um doente mental perigoso, o que me restaria?? Voltar para a miséria agrestina, e morrer miseravelmente junto com os meus pais, numa decadência inimaginável.
Numa hora dessas, é inevitável que as idéias suicidas recomecem a aparecer. Mas se eu der um tiro no peito, como Vladmir ou Vincent, quem cuidará dos meus pais?
Porém esse é um papo que não deveria entrar nessa estória aqui; por mais inevitável que seja. E também o seguinte: eu estou na defensiva, acreditem. Mas digo publicamente: que ninguém tente me espancar (tanto faz se é de extrema-direita ou de extrema-esquerda: vai se arrepender amargamente.)


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Mas eu não pedi demissão, como já disse. E nem me decidi por um confronto direto contra a Junta Médica, NAQUELE MOMENTO.
Eu não queria repetir a guerrinha “epistemológica” e “existencial” do Artaud contra o doutor Feriére: o que poderia resultar, pra mim, em uma derrota no campo especificamente “espiritual”, e complicar ainda mais uma situação que já estava bastante complicada e perigosa.
Então fui colocado “à disposição”, sem vínculo legal com qualquer setor da UFPE. E o Gabinete Jurídico me colocou sob responsabilidade do órgão central do SIPEC (Sistema de Pessoal Civil da Administração Pública Federal), para aguardar um possível exercício provisório em outro órgão.
E aqui entra em cena, novamente, o advogado do sindicato da minha categoria (técnicos administrativos do Ministério da Educação).

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Advogados de sindicatos são “facas de dois gumes”. Ou melhor: eles só atuam verdadeiramente a seu favor se você é da mesma corrente ideológica deles (do mesmo grupo “político”). Caso contrário, ficam enrolando e empurrando o caso com a barriga, até vencer o “cliente” pelo cansaço. E o pior é que, naquele momento, eu não tinha um vintém na poupança, nem a menor condição de fazer mais um empréstimo; e a maior parte da minha família me abandonou, por conta dos meus antigos conflitos-de-geração com a “normose” e o conformismo da tradicional família agrestina e açucareira do estado de Pernambuco. E também eu já estava gastando dinheiro com um psiquiatra e clínico geral, particulares. Além do gasto com exames específicos, vinculados ao tratamento exigido pela Junta Médica, tanto da parte psicológica quanto da parte orgânica. Pois o Hospital-Escola estava “falido”, e não “bancou” nenhum exame ou remédio. Apenas exigiu que eu me tratasse. E que EU pagasse pelo tratamento.
Mas um jovem advogado do sindicato decidiu me apoiar, apesar das minhas divergências políticas e culturais com a ortodoxia marxista.

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Então ficou claro mais uma vez que, daí pra frente, seria necessário um confronto direto contra o grupelho conservador e reacionário da Junta Médica, em torno do diagnóstico de incapacidade laborativa, e também a necessidade de continuar a guerra jurídica e “ideológica” contra a Reitoria. Eu não tinha mais pra onde correr. O confronto agora era inevitável. Era uma necessidade inarredável da luta pela sobrevivência.
Quero dizer: minha luta, daí pra frente, seria principalmente para manter o emprego, e trabalhar mais três anos, para chegar aos 35 anos de contribuição ao completar 60 anos de idade, e ainda torcer pra que o governo federal mantivesse as figuras jurídicas da aposentadoria proporcional e do fator previdenciário. Isto seria o eixo principal da minha luta nos próximos três anos.

FIM
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O autor

Zé do Sonho é um dos pseudônimos de José Luís Miranda, também conhecido como “Poeta Lara” ou apenas “LARA”, ou Zé de Lara.
Nasceu em 01/12/60, em Bom Conselho (PE), no agreste meridional.
Participou, informalmente, do Movimento de Escritores Independentes em Pernambuco.
É autodidata. Foi também recitador, e participou de recitais no Recife e em outras cidades do Nordeste do Brasil.

(fevereiro – 2018)

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AVISO IMPORTANTE
Esta é uma obra de ficção, e qualquer semelhança com a realidade deverá ser entendida como mera coincidência.


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